sábado, 10 de abril de 2021

Melanina & Amor

 Não ouse

titubear

caso

te julguem

inferior,

pois a tua cor

é poesia

a transbordar

melanina

& amor.

Dê flores

aos opressores!

Mostre a eles

que as tuas dores

expurgaram

os teus temores,

restando apenas

os ardores

da tua alma

liberta

dos terrores

de outrora.

Nunca permita

que essa gente

mal-amada

sopre amargura

na tua casta!

Você acolhe

nesta bela

pele preta

reluzente

e neste teu

charmoso

cabelo crespo,

as cores

do mundo

inteiro.

Não se deixe

desanimar!

Resistência

hoje,

amanhã,

já!

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Amargor

A Náusea já não acomete
o meu ser, ele a repele;
não suporta desfalecer
quando submerso está
a sentir o seu desaguar
demasiado indelicado.
O que me restou
da sua presença indolor
foi somente o Amargor
que impregnou o meu olhar,
tornando-me descrente
em relação a tantas coisas
que adoeciam a minha mente,
embora fossem inexistentes.
Há traços do Obscuro
no meu caminhar hesitante.
Já não posso ser como antes!
Divagante, a criatura errante
que em mim faz morada,
por vezes, estagna na estrada
e observa a estremecer
a multidão que desfila
sem porquê nem pra quê
na passarela do maldizer
que corrói o pensar
daqueles que por ela
ousarem andarilhar.
Nada falo, tudo escuto.
O soberano saber é mudo.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Sequela do Amor

O tempo chicoteia a memória
i n c e s s a n t e m e n t e.
Entretanto, o sádico ignora
um pequeno-grande porém:
quando se ama alguém,
esquece o esquecimento;
resistindo, assim, ao tormento.
O romântico é, 
primordialmente, 
um semideus:
mediante a prévia do fracasso, 
concebe um desfecho do seu agrado,
crendo piamente na sua veracidade.
Devaneando no mar do amor genuíno, 
fica insone e dá asas ao vil desatino:
chora e ri de si mesmo ao naufragar.


02 de junho de 2020

domingo, 3 de maio de 2020

Resenha - Drácula, de Bram Stoker


STOKER, Abraham 'Bram' (1847-1912). Drácula. Tradução e notas: Doris Goettems. São Paulo: Editora Landmark, 2012.⠀
Edição bilíngue: português / inglês.⠀
Bram foi um escritor irlandês que nasceu no século XIX. Sua vida passou a ser notável após a sua mudança para Londres, onde assumiu a administração do teatro de Henry Irving. Na época, a sociedade literária estava em ascensão, sendo o lar de escritores como Oscar Wilde, Arthur Conan Doyle e Lord Tennyson.⠀
Drácula  é um romance narrado através de cartas e anotações de um diário. A história mostra as experiências de sete personagens principais: Jonathan Harker, John Seward, Professor Van Helsing, Quincey Morris, Lord Godalming, Mina Harker e Lucy Westenra.⠀
A trama inicia com Jonathan Harker, um funcionário que foi enviado para visitar um conde estrangeiro que planeja se mudar para a Inglaterra. Este Conde, o Drácula, é bastante misterioso, mas Harker não suspeita que ele seja maléfico até perceber que este o trancou dentro do castelo — ele vira um prisioneiro.⠀
Daí em diante, a história se desenrola. O Conde Drácula vai para a Inglaterra, como planejava, e, estando lá, promove o caos. Lobos fogem de zoológicos e marcas de mordidas começam a aparecer em mulheres adormecidas.⠀
Mergulhando no Romance⠀
Há duas personagens que quero destacar: Mina e Lucy. Elas são amigas, porém extremamente diferentes. Mina é uma moça comportada, já Lucy é bem namoradeira. Ela recebe três propostas de casamento num só dia, o que sugere que ela detém poder sobre os homens que a cobiçam. ⠀
Lucy simboliza a "mulher moderna", autoconfiante e independente, que dispensa a liderança masculina. Essa alusão à "mulher moderna" é enfatizada quando Lucy recebe poderes vampíricos e ataca crianças pequenas, demonstrando, assim, rejeição ao seu instinto materno.⠀
Interessante, não?⠀
A presente obra não teve reconhecimento quando foi publicada, apenas pouco antes do falecimento do autor, é que ela resurgiu no mundo literário, rendendo fama a Stoker. Desde então, Drácula permaneceu na lembrança de todos, inspirando outras obras literárias e diversas adaptações cinematográficas.

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

domingo, 19 de abril de 2020

Tag: Dez Perguntas Literárias


Olá, tudo joinha por aí?⠀
Hoje, senti vontade de fazer um post diferente... Simbora para as perguntas!⠀
I - Qual é a capa mais bonita da sua estante?⠀
Eu tenho vários livros com capas maravilhosas... porém, eu nutro um encantamento especial por The Romantic Poets (a obra da foto), que é uma coletânea dos poemas de William Blake, George Gordon, Lord Byron, Samuel Taylor Coleridge, John Keats, Percy Bysshe Shelley e William Wordsworth, publicada pela editora @canterburyclassics.⠀
II - Se pudesse trazer um personagem para a vida real, qual seria?⠀
A minha adorada Lou Clark, de Como Eu Era Antes de Você (seríamos best friends).⠀
III - Se pudesse entrevistar um autor, qual seria?⠀
Sem sombra de dúvida, Edgar Allan Poe, o meu eterno mestre.⠀
IV - Um livro que indica para todo o mundo?⠀
A Náusea, de Jean-Paul Sartre.⠀
V - Uma história confusa.⠀
A Menina Submersa - Memórias, de Caitlín R. Kiernan, e é um dos meus livros favoritos.⠀
VI - Um casal.⠀
Elizabeth Bennet e Mr. Darcy. 😍⠀
VII - Dois vilões. (Que você gostou ou não)⠀
Drácula, da obra que atende pelo mesmo nome e Heathcliff, de O Morro dos Ventos Uivantes. ⠀
VIII - Um personagem que matarias.⠀
Beatty, de Fahrenheit 451.⠀
IX - Se pudesse viver num livro, qual seria?⠀
Eu viveria numa trilogia: As Peças Infernais, de @cassieclare1, apenas para conhecer Will Herondale.⠀
X - Qual teu maior e menor livro? (Em número de páginas).⠀
Maior: Grandes Contos, de H. P. Lovecraft, com 1176 páginas.⠀
Menor: Carmilla: A Vampira de Karnstein, com 96 páginas.⠀
Por hoje é só, pessoal. 🤗

Resenha - O Retrato de Dorian Gray


WILDE, Oscar (1854-1900). Tradução e notas: Doris Goettems - São Paulo: Editora Landmark, 2014.⠀⠀
Título original: The Picture of Dorian Gray.⠀⠀
Edição comentada bilíngue: português / inglês.⠀⠀
⠀⠀
Spoiler Alert! ⚠️⠀⠀
⠀⠀
Dorian Gray, a personagem tida como principal na obra, é um jovem muito belo e puro. Certa vez, um aspirante a artista pinta um lindo retrato de Dorian, e este último anseia que sua aparência vistosa seja eternizada. O desejo é concedido. Mr. Gray torna-se imutável — jovial e charmoso, porém, o retrato começa a deformar a sua alma.⠀⠀
⠀⠀
Quando a personagem se entrega a uma vida de hedonismo, ele utiliza sua beleza persuasiva para obter tudo que deseja. Sua insensibilidade faz com que um amigo coneta suicídio. A perversidade da sua alma faz com que ele ceife a vida de um amigo a sangue frio.⠀⠀
⠀⠀
No decorrer de um par de décadas, Dorian interiormente se torna uma criatura monstruosa e isso fica refletido no retrato, ainda que ele permaneça o mesmo externamente.⠀⠀
⠀⠀
A homossexualidade do autor não é um segredo, inclusive, o leitor pode discernir facilmente pormenores que implicam tal fato na narrativa. Talvez, e somente talvez, as sutis insinuações à homossexualidade de Mr. Wilde hajam tornado suas obras demasiado atrativas aos amantes da literatura que simpatizam pelo homossexualismo.⠀⠀
⠀⠀
Entretanto, no livro, pode-se notar como o estilo de vida da personagem é deveras condenado pelo desfecho da narrativa. Em seu desenvolvimento, a trama tenta dissuadir o leitor a desejar justiça e redenção. No fim da obra, enfatiza-se a necessidade de punição — a morte como o salário do pecado.⠀⠀
⠀⠀
O que acontece com o ser humano que busca saciar seus desejos? Nós envelhecemos porque pecamos? Esses são alguns dos questionamentos que surgem na mente do leitor após o findar da leitura de O Retrato de Dorian Gray.⠀⠀
⠀⠀
Nota: 🏆🏆🏆🏆🏆

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Resenha - A Náusea, de Jean-Paul Sartre


Nomeado originalmente La Nausée e publicado em 1938, a Náusea é o primeiro romance de Jean-Paul Sartre e um enveredamento de suas primeiras reflexões e ideias acerca do existencialismo. A presente obra compõe a categoria ficção, porém, é difícil a mim explaná-la como tal, visto que ela fora escrita um ano antes do início da segunda guerra mundial. Entretanto, cá estarei me esforçando para destrinchá-la.⠀
A Náusea é escrita no formato de um diário pelo autor fictício Antoine Roquentin. Para lê-lo, não carece de familiarizar-se com o escritor ou quaisquer um dos seus personagens. Eu escolhi esta obra com pouca ideia de quem era Sartre e posso afirmar sem titubeios que eu adorei este livro.⠀
No prefácio do diário, os leitores podem observar claramente que Roquentin viaja há muitos anos e agora voltou à França.⠀
Beirando o seu trigésimo aniversário, Rouquentin está realizando um projeto acadêmico em uma pequena cidade de Bouville (com base em Le Havre) e decidiu escrever uma biografia do Marquês de Rollebon, que é uma figura da Revolução Francesa. ⠀
Na narrativa, vê-se que Roquentin leva uma vida isolada, passando a maior parte de seus dias trabalhando em jornais da biblioteca local e à noite em cafés e restaurantes.⠀
Nessa solitude, ele sofre do que chama de náusea. Ele a descreve como uma sensação de falta de sentido na existência com outros corpos individuais. Antoine escreve um diário justamente para entender sua própria documentação sobre a náusea que ele sofre.⠀
É um processo de autorreflexão e essa é a primeira coisa importante a compreender se você estiver lendo este romance. Essa solidão é uma representação de uma existência sem fim (eterno retorno), na qual todo indivíduo está cercado, embora cada um esteja intrinsecamente só.

Quote:⠀
"Estou livre: já não me resta nenhuma razão para viver (...) mas essa liberdade se assemelha um pouco à morte".

terça-feira, 17 de março de 2020

Resenha - Fahrenheit 451, de Ray Bradbury


A trama se passa em um futuro próximo, no qual um governo totalitário condena quaisquer tipos de materiais literários e didáticos. A obra foi concebida em 1953, período pós Segunda Guerra, e traz críticas severas à opressão anti-intelectual nazista, mostrando-nos a apreensão do autor pelo viés de uma sociedade inflexível.

Em Fahrenheit 451, adentramos a rotina da personagem Guy Montag (que é um bombeiro responsável pela queima de livros). Sim, você leu certo: os bombeiros se ocupam na incineração das casas e bibliotecas de cidadãos que infligem a lei antilivros.

Montag — que passa bastante tempo questionando-se acerca das suas motivações ou seu emprego — contesta seus ideais após ver uma mulher ser queimada viva junto ao seus livros. O bombeiro divaga sobre o que poderia haver ocasionado tal atitude. Ela estaria ensandecida? Ou será que os livros de fato tinham algo a oferecê-la?

O enredo é absurdamente tenso. Ao opor-se à ordem natural das coisas, Montag se põe num verdadeiro inferno terrestre.

Fahrenheit 451 é um livro profundo: inspira questionamentos filosóficos que instigam o leitor a refletir sobre como seria o mundo caso os livros fossem extinguidos.

terça-feira, 3 de março de 2020

Resenha - Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski


Eu estive buscando por um ponto de partida para a obra de Dosto por algum tempo, o adorável romancista existencial que é o orgulho e a alegria do cânone literário da Rússia. Por fim, decidi que iria facilitar meu caminho com algumas de suas ficções mais breves. "Noites Brancas", uma das primeiras novelas de Dostoiévski, parecia exatamente "a coisa".⠀
A história é narrada por um narrador sem nome que adora divagar. Ele mora sozinho em um apartamento em São Petersburgo e não tem amigos ou família: apenas sua empregada matrona e alguns transeuntes aos quais ocasionalmente tira o chapéu enquanto está a caminho do trabalho.⠀
Uma noite, ele conhece uma jovem bonita chamada Nástienka. Uma moça órfã que fora enviada para morar com sua avó. Nástienka é tão solitária quanto o narrador, eles rapidamente se tornam amigos e, por parte do narrador, essa amizade logo se transforma em amor. Mal sabe nosso herói que Nástienka já está noiva de outro homem.⠀
Noites Brancas é uma ótima história. É fato que termina de uma forma melancólica, com Nástienka escolhendo seu noivo ao invés do narrador, porém, essa conclusão infeliz é, aos meus olhos, parte do que dá a essa narrativa seu impacto. Pois, veja, quando se torna aparente que Nástienka não está querendo deixar o noivo, o narrador simplesmente a deixa ir.
Esse tipo de história de amor é demasiado atrativa para mim, porque retrata um herói que realmente ama a mulher e não a ideia de amor, ou com algum tipo de visão idealizada de como poderia ser a vida deles.⠀
É óbvio que a trama não é isenta de falhas. A brevidade do relacionamento do narrador com Nástienka, talvez, cheire ao temido "amor passageiro". ⠀
A história termina com uma moral que, embora seja profunda, pode parecer um pouco intrincada. E, como você notará, caso decida ler Noites Brancas, o narrador-personagem, é, por vezes, um tagarela.⠀
Na segunda parte da novela, por exemplo, contém um longo monólogo dele no qual ele descreve minuciosamente alguns de seus devaneios preferidos. Isso, provavelmente, deixará certos leitores no tédio, mas, para mim, foi essencial para a construção do desfecho.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Resenha - A Revolução dos Bichos, de George Orwell


Nos dias atuais, ainda se discute bastante acerca da relevância da presente obra para os leitores desta geração, e eu, afirmo sem sombra de dúvidas que sim, ela é relevante. Após ler o livro, constatei que sua mensagem é demasiado poderosa, tocante e atemporal, como deveria haver sido na época na qual este fora publicado.

Animal Farm é um romance figurado de Orwell, ambientado num mundo em que os animais são bem mais sagazes. Por conta dessa inteligência, os porcos iniciam uma revolução contra os humanos e eles são os únicos que falam inglês fluentemente, o que lhes concedia o poder de serem líderes. Contudo, a estória se passa somente a alguns anos depois.

Animal Farm é a obra mais famosa de representação política já escrita. Os bichos assumem o controle de uma fazenda e as coisas parecem melhorar durante certo tempo, até que os suínos perdem o controle da situação.

Cá está a descrição perfeita para o que sucede com a revolução: ela se perde. Sabe-se o quão difícil é construir uma metáfora sofisticada, mas Orwell a conduz com maestria.

Apesar de A Revolução dos Bichos exigir maior compreensão da revolução russa para que sua mensagem seja verdadeiramente apreciada, os leitores sem tal conhecimento a entenderão do mesmo jeito.

Afinal de contas, Animal Farm é uma obra que todo o mundo pode e deveria ler.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Melhores Citações de O Pequeno Príncipe


"Não se vai muito longe andando em linha reta" p. 23
"Tenho que aturar duas ou três lagartas se quiser conhecer as borboletas" p. 49
"É muito mais difícil julgar a si mesmo do que a outra pessoa" p. 55
"Mas se você me cativar, o sol iluminará a minha vida. Conhecerei passos que soam diferente de todos os outros. Os outros passos me fazem sumir debaixo da terra. Os seus me atrairão para fora da toca, feito música" p. 90
"Só conhecemos as coisas que cativamos — disse a raposa. — Os homens não têm mais tempo de conhecer nada. Eles compram coisas todas prontas nos comerciantes. Mas como não existem comerciantes de amigos, os homens não têm mais amigos. Se quer um amigo, cative-me!" p. 91 - 92
"A linguagem é fonte de mal-entendidos" p. 92
"Se vier, por exemplo, às quatro da tarde, começarei a ficar feliz a partir das três" p. 92
"Vocês são bonitas, porém vazias — ele acrescentou. — impossível morrer por vocês. Um andarilho desavisado julgaria minha rosa parecida com vocês. Mas em si ela é mais importante que vocês todas juntas, pois foi ela que eu reguei. Foi ela que coloquei sob uma redoma. Foi ela que protegi com o biombo. Foi ela que livrei das lagartas (menos duas ou três para as borboletas). Foi ela que escutei se queixando, ou se gabando, ou mesmo, às vezes, ficando calada. Ela é que é a minha rosa." p. 94
"Só enxergamos com o coração. O essencial é invisível aos olhos" p. 94
"Somos sempre responsáveis pelo que cativamos" p. 94
"Corremos o risco de chorar um pouquinho quando nos deixamos cativar" p. 106
"Eu estava triste, mas lhes dizia: "É o cansaço... " p. 116

Saint-Exupéry, Antoine de, 1900-1944. O Pequeno Príncipe; tradução André Telles, Rodrigo Lacerda. 1ª edição — Rio de Janeiro: Zahar, 2015.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Resenha - Carmilla: A Vampira de Karnstein, de Sheridan Le Fanu


Carmilla foi originalmente publicada no Reino Unido em 1872, pela editora Bentley, antecedendo, assim, o Drácula. É importantíssimo mencionar que a novela é uma referência gótica que veio a influenciar a literatura vampírica.

A narrativa é contada em primeira pessoa pela personagem Laura, uma jovem que mora com o pai e duas governantas em um castelo na Estíria. A estória envolve o encontro da moça com a personagem-título. Laura, juntamente de seu pai, presencia um acidente de carruagem e ambos se dispõem a prestar assistência.

Consequentemente, acabam fornecendo abrigo a essa jovem que se encontra em estado de letargia, enquanto sua "mãe" segue viagem alegando ter uma obrigação impreterível sobre a qual não revela sequer um pormenor.

A hóspede que há anos foi vista inexplicavelmente em sonho pela narradora, é descrita como bela e lânguida. Sua presença sacia a ânsia de Laura por companhia, gerando laços fortíssimos de atração entre as duas.

Le Fanu, apesar da época, não se preocupou em esconder o gritante elemento lésbico que compõe a trama. Carmilla seduz vítimas do sexo feminino na narração. A impossibilidade de um vampiro entrar em um local sem que seja convidado, está presente em Carmilla. Fator que é bastante difundido em narrativas posteriores.

O único "defeito" de Carmilla - A Vampira de Karnstein é a sua brevidade: 96 páginas.

Resenha - Amores Impossíveis E Outras Perturbações Quânticas, de Lucas Silveira


Eu tenho acompanhado a evolução do Lucas enquanto compositor / cantor há algum tempo (ouçam A Sinfonia de Tudo Que Há), por isso, não foi surpresa para mim me deparar com esta obra cativante que é resultante da ascenção intelectual daquele que a concebeu.

O livro é composto por crônicas, e cada textículo é recheado de fragmentos da alma sensível do seu criador. Neste livro, podemos vislumbrar um pormenor que passa despercebido à maior parte das pessoas: há poesia em cada acontecimento da nossa rotina.


A escrita do Lucas é visceral, e para comprovar o que digo:
"Eu quero que meu impacto nas pessoas seja sutil como a colisão de dois caminhões em sentidos opostos''.
"Saudade não é ausência, é presença. Presença de algo que não está mais lá".
"Enquanto você não está, o vento segue uivando, as árvores continuam a balançar e essa pessoa aí do seu lado pode até vir a conhecer alguém mais interessante que você e isso vai certamente te entristecer um bocado".
"Como esporos de flores que pelas abelhas são levados ao longe, pedaços de minha alma hoje ocupam os mais diversos lugares".
"O presente nada mais é do que o momento em que passado e futuro se beijam".

A leitura é tão agradável que você devora o livro numa sentada. Contudo, tal brevidade traz consigo uma profundidade cavalar! Eu sei que sou suspeita demais para falar sobre a grandeza desses escritos, porém, eu tenho certeza que quaisquer pessoas diriam pareceres similares ao meu.


A fonte do livro está bem adequada; o espaçamento entre as letras foi devidamente posto e o título de cada crônica é "grifado" por um tom de azul que dialoga perfeitamente com as imagens do livro. A diagramação, então, nem preciso mencionar! Estão curiosos? Não vejo outra saída senão adquirir a obra.

domingo, 1 de dezembro de 2019

XVI


Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo

Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto,

Não cabe no meu canto.
.
.
O poema acima faz parte do livro "Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão", que foi ousadamente publicado pela dona Hilst durante a ditadura militar, em 1974.

domingo, 3 de novembro de 2019

Resenha - Edgar Allan Poe: Medo Clássico Vol. 1


Poe, Edgar Allan, 1809 - 1849. Edgar Allan Poe: Medo Clássico. Tradução de Marcia Heloisa Amarante Gonçalves; ilustrações de Ramon Rodrigues. - Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2017. 384 p.

No primeiro volume da coletânea de textos de Edgar Allan Poe: Medo Clássico, constam quinze contos do autor, juntamente do ensaio A Filosofia da Composição e o poema O Corvo na sua versão original e nas traduções de Machado de Assis e Fernando Pessoa, bifurcados pelos seguintes tópicos: Espectro da Morte, Narradores Homicidas, Detetive Dupin, Mulheres Etéreas, Ímpeto Aventureiro e O Corvo. A maneira na qual os textos foram organizados possibilita um achegamento mais amplo do leitor para com o autor.
A divisão da coletânea sucedeu da seguinte forma:

Espectro da Morte: O Poço e o Pêndulo, A Queda da Casa de Usher  e O Baile da Morte Vermelha.


Narradores Homicidas: O Gato Preto, O Barril de Amontilhado e O Coração Delator.


Detetive Dupin: Os Assassinatos na Rua Morgue, O Mistério de Marie Rogêt e A Carta Roubada.


Mulheres Etéreas: Berenice, Ligeia  e Eleonora.


Ímpeto Aventureiro: Manuscrito Encontrado Numa Garrafa, O Escaravelho de Ouro  e Nunca Aposte a Cabeça Com o Diabo.


O Corvo: A Filosofia da Composição, O Corvo (Versão Original) e traduções para o português de Machado de Assis e Fernando Pessoa.


Sobre o autor:


Edgar Allan Poe nasceu em 19 de janeiro de 1809, em Boston (EUA) e faleceu em 7 de outubro de 1849, em Baltimore. Poe foi autor, poeta, editor e crítico literário. Ele foi pioneiro do gênero ficção policial ao conceber o conto "Os Assassinatos na Rua Morgue" (1841). A atmosfera em suas narrativas de horror é inigualável na ficção americana. Seu “The Raven” (1845) é um dos poemas mais conhecidos da literatura mundial.
Edgar era filho da atriz inglesa Elizabeth Arnold Poe e David Poe Jr., um ator de Baltimore. Depois que sua mãe morreu em Richmond, no ano de 1811, ele foi levado para a casa de John Allan, um comerciante de Richmond (presumivelmente, seu padrinho).

Curiosidades:

Poe era um ótimo crítico literário, e, por conta disso, adquiriu vários inimigos. Ele não falava bem do que não considerava bom. Por essa razão, ele não teve muitos amigos no ramo literário e dependia de si mesmo para escrever e publicar suas estórias.
Ele era muito bom nos jogos na época da universidade, e foi graças ao que ganhou nos jogos de azar que publicou os seus primeiros contos.

Um fato pouco conhecido:

O crítico e antologista Rufus Wilmot Griswold, (aquele que denigriu a imagem e obras de Poe) se converteu no executor literário efetivo das obras de Poe, ainda que tenha sido um de seus rivais. Posteriormente, ele publicou a primeira biografia completa do Poe, retratando-o como um depravado, bêbado e louco tomado pelas drogas, chegando, inclusive, a falsificar cartas do poeta como prova disso.

Sobre a morte de Poe...

Edgar foi encontrado às margens de um rio, em Baltimore, num estado lastimável. Havia sido assaltado e espancado. Ele foi hospitalizado e morreu após alguns dias.
Rufus escreveu no jornal New York Daily Tribune, de 09 de outubro de 1849: 
"Edgar Allan Poe está morto. Ele morreu em Baltimore anteontem. Este anúncio vai assustar muitos, mas poucos estão tristes por ele".
Mesmo depois da morte de Poe, Rufus continuou o odiando. Fez uma campanha para arruinar a sua reputação, que durou oito anos, até a sua morte.
Algo para se pensar: Rufus não poderia estar envolvido na misteriosa morte de Edgar Allan Poe?

Alguns escritores que foram influenciados por Edgar Allan Poe:

Jules Verne, Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, H. P. Lovecraft, T. S. Eliot, Ezra Pound e Stephen King.

Referências consultadas:
Edgar Allan Poe: A Critical Biography / by Arthur Hobson Quinn; with a new foreword by Shawn Rosenheim. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Resenha - A Metamorfose, de Franz Kafka


Die Verwandlung teve a sua primeira publicação no ano de 1915. Nesta novela, Kafka nos apresenta inicialmente a um caixeiro-viajante que atende por Gregor Samsa, um homem que, por ser o único a trabalhar, assume a responsabidade de prover sua família.


"(...) certa manhã, despertou de sonhos intranquilos encontrou-se em sua cama metamorfoseado em um inseto monstruoso".

Durante a narrativa, acompanhamos o processo de adaptação de Gregor à sua nova condição e, com isso, vemos também o modo que os seus parentes passam a lhe tratar mediante a terrível mudança.

Ainda que a estória seja breve, sua profundidade supera quaisquer expectativas que o leitor possa vir a conceber. A Metamorfose pela qual o personagem passa pode ser interpretada de diversas formas, e isso, certamente, é um fator deveras atrativo ao leitor.


Que tal ler essa obra-prima do Sr. Kafka, hein? Indico, porque assim que finalizei a leitura, fui acometida por uma certeza avassaladora: todo o mundo carece de conhecer este livro. O conteúdo de A Metamorfose é tão visceral! Ele irá te engolfar e jogar o teu ser numa reflexão que, independentemente do que venha a acontecer contigo, tu jamais voltarás a enxergar as relações mundanas e, a si mesmo, como antes.


Ah, sobre a edição elaborada com bastante carinho pela Antofágica, ela é tão bela quanto a obra, pode crer!

sábado, 7 de setembro de 2019

O Bluebird


em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo, fica aí dentro, eu não vou
deixar ninguém
te ver.

em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu taco uísque nele e respiro
fumaça de cigarro
e as putas e os barmen
e as caixas de mercado
nunca sabem que
ele está
aqui dentro.

em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo,
fica na tua, você quer me pôr
em apuros?
você quer sacanear a minha
obra?
ferrar com a minha venda de livros na
Europa?

em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu sou mais esperto, só deixo ele sair
de noite, às vezes
quando todos estão dormindo
eu falo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

daí o ponho de volta,
mas ele ainda canta um pouco
aqui dentro, eu não o deixei morrer
totalmente
e a gente dorme junto desse
jeito
com nosso
pacto secreto
e isso é bem capaz de
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?

— Charles Bukowski, no livro "Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém". (7Letras, 2ª edição [2015]).

domingo, 1 de setembro de 2019

Resenha - Os Pássaros, de Frank Baker


BAKER, Frank. Os Pássaros. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2016. 304 p.

Após oitenta anos de sua publicação original, Os Pássaros, de Frank Baker, veio ao Brasil graças a Editora DarkSide Books.
Certo dia, a cidade de Londres foi invadida por milhares de pássaros. Eles voavam em grupo e pousavam em monumentos, como se perscrutassem o local e os cidadãos que os observavam. A princípio, eles se tornaram uma atração às pessoas, e estas questionavam-se acerca de onde e por que vieram. Contudo, não tardou para que os pássaros respondessem à última pergunta; do nada, eles passaram a perseguir, ferir e matar as pessoas.


Os Pássaros é um romance obscuro recheado de suspense. É narrado em primeira pessoa por um sobrevivente da época em que os pássaros chegaram à City. O narrador-personagem se encontra numa idade avançada e conta os fatos da maneira que consegue recordá-los para Anna, sua filha, fornecendo-lhe detalhes da vinda das criaturas aladas e de como foi a reação do público em geral. A história é narrada vagarosamente, para que possamos vivenciar as angústias do narrador, que nos agracia com os seus pensamentos filosóficos constantemente:

"Enquanto eu conhecesse as inesgotáveis forças de criação da Alma, não precisaria nunca temer a morte, pois a morte era uma palavra inventada por alguém cujo corpo havia perdido sua Alma. Quando esse corpo se aproximasse do fim, procederia ao ato final de oferecer-se à Alma, fortalecida dessa forma para sempre, iria se identificar com o outro universo de onde surgiu". 
"Em sua criação, um homem coloca todo o amor que jamais sentiu pelo mundo natural. Como uma homenagem à força criativa que o fez: uma assinatura de sua existência. O artista deve trabalhar para si; trabalhar somente para expressar a si mesmo, sem buscar nenhuma recompensa que não seja a satisfação  em saber que dele veio uma reafirmação da verdade".
"Eu soube, de uma maneira que jamais havia aceitado antes, que eu permanecia sozinho, que ninguém poderia invadir minha Alma. Tampouco eu poderia penetrar na intimidade de qualquer outra Alma (...) eu não podia salvar ninguém, pois ninguém tinha o poder de salvar um homem a não ser ele mesmo".
Os Pássaros foi publicado em junho 1936, três anos antes de a Segunda Guerra Mundial iniciar. No romance, nos deparamos com passagens nas quais podemos sentir o medo inflamar na sociedade. Há momentos em que o autor soa profético ao descrever o clima aterrador: 
“Percebi em tudo um sentimento terrível de instabilidade do falso mundo que havíamos erguido no lugar do mundo verdadeiro, que era nossa herança".


A metáfora que engolfa os pássaros é uma nuvem negra a se aproximar da cidade, e pode ser compreendida como o espelho desse medo de que algo muito ruim estava por vir. A meu ver, Os Pássaros é um romance apocalíptico, no qual as criaturas aladas simbolizam entidades diabólicas que são providas do que há de pior no ser humano.

Caro leitor, se um pássaro pousar em seu umbral, encare a si mesmo nos olhos hediondos dele.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Resenha - A Menina Submersa: Memórias, de Caitilín R. Kiernan


KIERNAN, Caitilín R. A Menina Submersa: Memórias. São Paulo: DarkSide Books, 2014. 320 p.

"A Menina Submersa: Memórias" foi o segundo livro da Editora DarkSide Books que eu adquiri (o primeiro foi Exorcismo) e sim, foi amor à primeira vista. Eu confesso que, a princípio, o que mais me chamou atenção no exemplar foi a aparência enigmática. Eu senti que aquele belo livro tinha algo muito importante a me dizer, e o meu sentir não estava errado. Algumas pessoas alegam haverem largado a leitura por ser de difícil entendimento, arrastada etc., e, sinceramente, pela experiência que eu tive, afirmo sem sombra de dúvidas: tais pessoas leram errado.
O teor do livro é meditativo, logo, nem pense em devorá-lo, pois essa obra carece de ser degustada.


A estória  é escrita e narrada em primeira pessoa por uma personagem esquizofrênica e a sua graça é India Morgan Phelps, mais conhecida como Imp (que significa criança levada em inglês). Eu aconselho que fiquem atentos à trama, porque a personagem conta a seu modo e da forma que consegue recordar. Quando Imp considera alguma lembrança demasiado árdua, ela não a cita, segue adiante falando sobre coisas menos complicadas e, ao retornar ao assunto anteriormente reprimido, ainda assim, faz rodeios.

  "Mas Jeane, pelo que você está falando, o livro realmente parece ser coisado" ─ de jeito nenhum, leitor cismado! Se você estiver determinado a compreender as divagações da narradora, com certeza será fisgado pela sua narrativa fantasmagórica.

O livro é recheado de trechos que são dignos de serem lidos e relidos diversas vezes, porque nos fascinam de uma forma diferente sempre que nos atrevemos a saboreá-los. E para provar que eu não estou exagerando, leia comigo, por favor:

"Gente morta, ideias mortas e supostamente momentos mortos nunca estão mortos de verdade e eles moldam cada momento de nossas vidas. Nós os ignoramos e isso os torna poderosos."

Imp deseja exorcizar seus demônios ao tentar escrever uma estória de fantasmas, eu a compreendo plenamente. A narradora é uma jovem orfã,  sua mãe e avó (ambas doentes mentais) se suicidaram, e essas tragédias reverberam drasticamente na mente de Imp quando ela passa a viver sozinha. Um dia, Imp encontra Abalyn, uma transexual que faz resenhas de video games, e logo elas engatam em um namoro. Tudo corre bem entre as pombinhas até Eva aparecer, uma mulher peculiar que Imp encontra paralisada na estrada. Segundo a narradora, esta mulher pode ser uma sereia, loba ou uma criatura sobrenatural. É sumamente importante mencionar que  talvez tudo seja fruto da esquizofrenia / depressão da contadora de estória, pois ela relaciona o canto desta "mulher-sereia" com o chamado da morte.


Não é à toa que esta obra é uma de minhas favoritas, hahaha! Deem uma chance a Imp, ela merece, e vocês, certamente, não irão se arrepender.
Beijinhos tenebrosos!

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Renego-me

Renego-me a esquecer
o que permiti acontecer
por mero descaso.
Renego-me a esquecer
que a vida reinou em mim,
mas eu a menosprezei,
porque o meu sentir era raso.
Renego-me a esquecer
que a ansiei, mas fui a causadora
do seu lancinante ocaso.
Renego-me,
e vislumbro-me perecer
a cada passo.

Autoria: Jeane Tertuliano