domingo, 1 de dezembro de 2019

XVI


Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo

Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto,

Não cabe no meu canto.
.
.
O poema acima faz parte do livro "Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão", que foi ousadamente publicado pela dona Hilst durante a ditadura militar, em 1974.

domingo, 3 de novembro de 2019

Resenha - Edgar Allan Poe: Medo Clássico Vol. 1


Poe, Edgar Allan, 1809 - 1849. Edgar Allan Poe: Medo Clássico. Tradução de Marcia Heloisa Amarante Gonçalves; ilustrações de Ramon Rodrigues. - Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2017. 384 p.

No primeiro volume da coletânea de textos de Edgar Allan Poe: Medo Clássico, constam quinze contos do autor, juntamente do ensaio A Filosofia da Composição e o poema O Corvo na sua versão original e nas traduções de Machado de Assis e Fernando Pessoa, bifurcados pelos seguintes tópicos: Espectro da Morte, Narradores Homicidas, Detetive Dupin, Mulheres Etéreas, Ímpeto Aventureiro e O Corvo. A maneira na qual os textos foram organizados possibilita um achegamento mais amplo do leitor para com o autor.
A divisão da coletânea sucedeu da seguinte forma:

Espectro da Morte: O Poço e o Pêndulo, A Queda da Casa de Usher  e O Baile da Morte Vermelha.


Narradores Homicidas: O Gato Preto, O Barril de Amontilhado e O Coração Delator.


Detetive Dupin: Os Assassinatos na Rua Morgue, O Mistério de Marie Rogêt e A Carta Roubada.


Mulheres Etéreas: Berenice, Ligeia  e Eleonora.


Ímpeto Aventureiro: Manuscrito Encontrado Numa Garrafa, O Escaravelho de Ouro  e Nunca Aposte a Cabeça Com o Diabo.


O Corvo: A Filosofia da Composição, O Corvo (Versão Original) e traduções para o português de Machado de Assis e Fernando Pessoa.


Sobre o autor:


Edgar Allan Poe nasceu em 19 de janeiro de 1809, em Boston (EUA) e faleceu em 7 de outubro de 1849, em Baltimore. Poe foi autor, poeta, editor e crítico literário. Ele foi pioneiro do gênero ficção policial ao conceber o conto "Os Assassinatos na Rua Morgue" (1841). A atmosfera em suas narrativas de horror é inigualável na ficção americana. Seu “The Raven” (1845) é um dos poemas mais conhecidos da literatura mundial.
Edgar era filho da atriz inglesa Elizabeth Arnold Poe e David Poe Jr., um ator de Baltimore. Depois que sua mãe morreu em Richmond, no ano de 1811, ele foi levado para a casa de John Allan, um comerciante de Richmond (presumivelmente, seu padrinho).

Curiosidades:

Poe era um ótimo crítico literário, e, por conta disso, adquiriu vários inimigos. Ele não falava bem do que não considerava bom. Por essa razão, ele não teve muitos amigos no ramo literário e dependia de si mesmo para escrever e publicar suas estórias.
Ele era muito bom nos jogos na época da universidade, e foi graças ao que ganhou nos jogos de azar que publicou os seus primeiros contos.

Um fato pouco conhecido:

O crítico e antologista Rufus Wilmot Griswold, (aquele que denigriu a imagem e obras de Poe) se converteu no executor literário efetivo das obras de Poe, ainda que tenha sido um de seus rivais. Posteriormente, ele publicou a primeira biografia completa do Poe, retratando-o como um depravado, bêbado e louco tomado pelas drogas, chegando, inclusive, a falsificar cartas do poeta como prova disso.

Sobre a morte de Poe...

Edgar foi encontrado às margens de um rio, em Baltimore, num estado lastimável. Havia sido assaltado e espancado. Ele foi hospitalizado e morreu após alguns dias.
Rufus escreveu no jornal New York Daily Tribune, de 09 de outubro de 1849: 
"Edgar Allan Poe está morto. Ele morreu em Baltimore anteontem. Este anúncio vai assustar muitos, mas poucos estão tristes por ele".
Mesmo depois da morte de Poe, Rufus continuou o odiando. Fez uma campanha para arruinar a sua reputação, que durou oito anos, até a sua morte.
Algo para se pensar: Rufus não poderia estar envolvido na misteriosa morte de Edgar Allan Poe?

Alguns escritores que foram influenciados por Edgar Allan Poe:

Jules Verne, Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, H. P. Lovecraft, T. S. Eliot, Ezra Pound e Stephen King.

Referências consultadas:
Edgar Allan Poe: A Critical Biography / by Arthur Hobson Quinn; with a new foreword by Shawn Rosenheim. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Resenha - A Metamorfose, de Franz Kafka


Die Verwandlung teve a sua primeira publicação no ano de 1915. Nesta novela, Kafka nos apresenta inicialmente a um caixeiro-viajante que atende por Gregor Samsa, um homem que, por ser o único a trabalhar, assume a responsabidade de prover sua família.


"(...) certa manhã, despertou de sonhos intranquilos encontrou-se em sua cama metamorfoseado em um inseto monstruoso".

Durante a narrativa, acompanhamos o processo de adaptação de Gregor à sua nova condição e, com isso, vemos também o modo que os seus parentes passam a lhe tratar mediante a terrível mudança.

Ainda que a estória seja breve, sua profundidade supera quaisquer expectativas que o leitor possa vir a conceber. A Metamorfose pela qual o personagem passa pode ser interpretada de diversas formas, e isso, certamente, é um fator deveras atrativo ao leitor.


Que tal ler essa obra-prima do Sr. Kafka, hein? Indico, porque assim que finalizei a leitura, fui acometida por uma certeza avassaladora: todo o mundo carece de conhecer este livro. O conteúdo de A Metamorfose é tão visceral! Ele irá te engolfar e jogar o teu ser numa reflexão que, independentemente do que venha a acontecer contigo, tu jamais voltarás a enxergar as relações mundanas e, a si mesmo, como antes.


Ah, sobre a edição elaborada com bastante carinho pela Antofágica, ela é tão bela quanto a obra, pode crer!

sábado, 7 de setembro de 2019

O Bluebird


em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo, fica aí dentro, eu não vou
deixar ninguém
te ver.

em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu taco uísque nele e respiro
fumaça de cigarro
e as putas e os barmen
e as caixas de mercado
nunca sabem que
ele está
aqui dentro.

em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo,
fica na tua, você quer me pôr
em apuros?
você quer sacanear a minha
obra?
ferrar com a minha venda de livros na
Europa?

em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu sou mais esperto, só deixo ele sair
de noite, às vezes
quando todos estão dormindo
eu falo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

daí o ponho de volta,
mas ele ainda canta um pouco
aqui dentro, eu não o deixei morrer
totalmente
e a gente dorme junto desse
jeito
com nosso
pacto secreto
e isso é bem capaz de
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?

— Charles Bukowski, no livro "Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém". (7Letras, 2ª edição [2015]).

domingo, 1 de setembro de 2019

Resenha - Os Pássaros, de Frank Baker


BAKER, Frank. Os Pássaros. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2016. 304 p.

Após oitenta anos de sua publicação original, Os Pássaros, de Frank Baker, veio ao Brasil graças a Editora DarkSide Books.
Certo dia, a cidade de Londres foi invadida por milhares de pássaros. Eles voavam em grupo e pousavam em monumentos, como se perscrutassem o local e os cidadãos que os observavam. A princípio, eles se tornaram uma atração às pessoas, e estas questionavam-se acerca de onde e por que vieram. Contudo, não tardou para que os pássaros respondessem à última pergunta; do nada, eles passaram a perseguir, ferir e matar as pessoas.


Os Pássaros é um romance obscuro recheado de suspense. É narrado em primeira pessoa por um sobrevivente da época em que os pássaros chegaram à City. O narrador-personagem se encontra numa idade avançada e conta os fatos da maneira que consegue recordá-los para Anna, sua filha, fornecendo-lhe detalhes da vinda das criaturas aladas e de como foi a reação do público em geral. A história é narrada vagarosamente, para que possamos vivenciar as angústias do narrador, que nos agracia com os seus pensamentos filosóficos constantemente:

"Enquanto eu conhecesse as inesgotáveis forças de criação da Alma, não precisaria nunca temer a morte, pois a morte era uma palavra inventada por alguém cujo corpo havia perdido sua Alma. Quando esse corpo se aproximasse do fim, procederia ao ato final de oferecer-se à Alma, fortalecida dessa forma para sempre, iria se identificar com o outro universo de onde surgiu". 
"Em sua criação, um homem coloca todo o amor que jamais sentiu pelo mundo natural. Como uma homenagem à força criativa que o fez: uma assinatura de sua existência. O artista deve trabalhar para si; trabalhar somente para expressar a si mesmo, sem buscar nenhuma recompensa que não seja a satisfação  em saber que dele veio uma reafirmação da verdade".
"Eu soube, de uma maneira que jamais havia aceitado antes, que eu permanecia sozinho, que ninguém poderia invadir minha Alma. Tampouco eu poderia penetrar na intimidade de qualquer outra Alma (...) eu não podia salvar ninguém, pois ninguém tinha o poder de salvar um homem a não ser ele mesmo".
Os Pássaros foi publicado em junho 1936, três anos antes de a Segunda Guerra Mundial iniciar. No romance, nos deparamos com passagens nas quais podemos sentir o medo inflamar na sociedade. Há momentos em que o autor soa profético ao descrever o clima aterrador: 
“Percebi em tudo um sentimento terrível de instabilidade do falso mundo que havíamos erguido no lugar do mundo verdadeiro, que era nossa herança".


A metáfora que engolfa os pássaros é uma nuvem negra a se aproximar da cidade, e pode ser compreendida como o espelho desse medo de que algo muito ruim estava por vir. A meu ver, Os Pássaros é um romance apocalíptico, no qual as criaturas aladas simbolizam entidades diabólicas que são providas do que há de pior no ser humano.

Caro leitor, se um pássaro pousar em seu umbral, encare a si mesmo nos olhos hediondos dele.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Resenha - A Menina Submersa: Memórias, de Caitilín R. Kiernan


KIERNAN, Caitilín R. A Menina Submersa: Memórias. São Paulo: DarkSide Books, 2014. 320 p.

"A Menina Submersa: Memórias" foi o segundo livro da Editora DarkSide Books que eu adquiri (o primeiro foi Exorcismo) e sim, foi amor à primeira vista. Eu confesso que, a princípio, o que mais me chamou atenção no exemplar foi a aparência enigmática. Eu senti que aquele belo livro tinha algo muito importante a me dizer, e o meu sentir não estava errado. Algumas pessoas alegam haverem largado a leitura por ser de difícil entendimento, arrastada etc., e, sinceramente, pela experiência que eu tive, afirmo sem sombra de dúvidas: tais pessoas leram errado.
O teor do livro é meditativo, logo, nem pense em devorá-lo, pois essa obra carece de ser degustada.


A estória  é escrita e narrada em primeira pessoa por uma personagem esquizofrênica e a sua graça é India Morgan Phelps, mais conhecida como Imp (que significa criança levada em inglês). Eu aconselho que fiquem atentos à trama, porque a personagem conta a seu modo e da forma que consegue recordar. Quando Imp considera alguma lembrança demasiado árdua, ela não a cita, segue adiante falando sobre coisas menos complicadas e, ao retornar ao assunto anteriormente reprimido, ainda assim, faz rodeios.

  "Mas Jeane, pelo que você está falando, o livro realmente parece ser coisado" ─ de jeito nenhum, leitor cismado! Se você estiver determinado a compreender as divagações da narradora, com certeza será fisgado pela sua narrativa fantasmagórica.

O livro é recheado de trechos que são dignos de serem lidos e relidos diversas vezes, porque nos fascinam de uma forma diferente sempre que nos atrevemos a saboreá-los. E para provar que eu não estou exagerando, leia comigo, por favor:

"Gente morta, ideias mortas e supostamente momentos mortos nunca estão mortos de verdade e eles moldam cada momento de nossas vidas. Nós os ignoramos e isso os torna poderosos."

Imp deseja exorcizar seus demônios ao tentar escrever uma estória de fantasmas, eu a compreendo plenamente. A narradora é uma jovem orfã,  sua mãe e avó (ambas doentes mentais) se suicidaram, e essas tragédias reverberam drasticamente na mente de Imp quando ela passa a viver sozinha. Um dia, Imp encontra Abalyn, uma transexual que faz resenhas de video games, e logo elas engatam em um namoro. Tudo corre bem entre as pombinhas até Eva aparecer, uma mulher peculiar que Imp encontra paralisada na estrada. Segundo a narradora, esta mulher pode ser uma sereia, loba ou uma criatura sobrenatural. É sumamente importante mencionar que  talvez tudo seja fruto da esquizofrenia / depressão da contadora de estória, pois ela relaciona o canto desta "mulher-sereia" com o chamado da morte.


Não é à toa que esta obra é uma de minhas favoritas, hahaha! Deem uma chance a Imp, ela merece, e vocês, certamente, não irão se arrepender.
Beijinhos tenebrosos!

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Renego-me

Renego-me a esquecer
o que permiti acontecer
por mero descaso.
Renego-me a esquecer
que a vida reinou em mim,
mas eu a menosprezei,
porque o meu sentir era raso.
Renego-me a esquecer
que a ansiei, mas fui a causadora
do seu lancinante ocaso.
Renego-me,
e vislumbro-me perecer
a cada passo.

Autoria: Jeane Tertuliano