segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Resenha - A Metamorfose, de Franz Kafka


Die Verwandlung teve a sua primeira publicação no ano de 1915. Nesta novela, Kafka nos apresenta inicialmente a um caixeiro-viajante que atende por Gregor Samsa, um homem que, por ser o único a trabalhar, assume a responsabidade de prover sua família.


"(...) certa manhã, despertou de sonhos intranquilos encontrou-se em sua cama metamorfoseado em um inseto monstruoso".

Durante a narrativa, acompanhamos o processo de adaptação de Gregor à sua nova condição e, com isso, vemos também o modo que os seus parentes passam a lhe tratar mediante a terrível mudança.

Ainda que a estória seja breve, sua profundidade supera quaisquer expectativas que o leitor possa vir a conceber. A Metamorfose pela qual o personagem passa pode ser interpretada de diversas formas, e isso, certamente, é um fator deveras atrativo ao leitor.


Que tal ler essa obra-prima do Sr. Kafka, hein? Indico, porque assim que finalizei a leitura, fui acometida por uma certeza avassaladora: todo o mundo carece de conhecer este livro. O conteúdo de A Metamorfose é tão visceral! Ele irá te engolfar e jogar o teu ser numa reflexão que, independentemente do que venha a acontecer contigo, tu jamais voltarás a enxergar as relações mundanas e, a si mesmo, como antes.


Ah, sobre a edição elaborada com bastante carinho pela Antofágica, ela é tão bela quanto a obra, pode crer!

sábado, 7 de setembro de 2019

O Bluebird


em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo, fica aí dentro, eu não vou
deixar ninguém
te ver.

em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu taco uísque nele e respiro
fumaça de cigarro
e as putas e os barmen
e as caixas de mercado
nunca sabem que
ele está
aqui dentro.

em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo,
fica na tua, você quer me pôr
em apuros?
você quer sacanear a minha
obra?
ferrar com a minha venda de livros na
Europa?

em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu sou mais esperto, só deixo ele sair
de noite, às vezes
quando todos estão dormindo
eu falo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

daí o ponho de volta,
mas ele ainda canta um pouco
aqui dentro, eu não o deixei morrer
totalmente
e a gente dorme junto desse
jeito
com nosso
pacto secreto
e isso é bem capaz de
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?

— Charles Bukowski, no livro "Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém". (7Letras, 2ª edição [2015]).

domingo, 1 de setembro de 2019

Resenha - Os Pássaros, de Frank Baker


BAKER, Frank. Os Pássaros. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2016. 304 p.

Após oitenta anos de sua publicação original, Os Pássaros, de Frank Baker, veio ao Brasil graças a Editora DarkSide Books.
Certo dia, a cidade de Londres foi invadida por milhares de pássaros. Eles voavam em grupo e pousavam em monumentos, como se perscrutassem o local e os cidadãos que os observavam. A princípio, eles se tornaram uma atração às pessoas, e estas questionavam-se acerca de onde e por que vieram. Contudo, não tardou para que os pássaros respondessem à última pergunta; do nada, eles passaram a perseguir, ferir e matar as pessoas.


Os Pássaros é um romance obscuro recheado de suspense. É narrado em primeira pessoa por um sobrevivente da época em que os pássaros chegaram à City. O narrador-personagem se encontra numa idade avançada e conta os fatos da maneira que consegue recordá-los para Anna, sua filha, fornecendo-lhe detalhes da vinda das criaturas aladas e de como foi a reação do público em geral. A história é narrada vagarosamente, para que possamos vivenciar as angústias do narrador, que nos agracia com os seus pensamentos filosóficos constantemente:

"Enquanto eu conhecesse as inesgotáveis forças de criação da Alma, não precisaria nunca temer a morte, pois a morte era uma palavra inventada por alguém cujo corpo havia perdido sua Alma. Quando esse corpo se aproximasse do fim, procederia ao ato final de oferecer-se à Alma, fortalecida dessa forma para sempre, iria se identificar com o outro universo de onde surgiu". 
"Em sua criação, um homem coloca todo o amor que jamais sentiu pelo mundo natural. Como uma homenagem à força criativa que o fez: uma assinatura de sua existência. O artista deve trabalhar para si; trabalhar somente para expressar a si mesmo, sem buscar nenhuma recompensa que não seja a satisfação  em saber que dele veio uma reafirmação da verdade".
"Eu soube, de uma maneira que jamais havia aceitado antes, que eu permanecia sozinho, que ninguém poderia invadir minha Alma. Tampouco eu poderia penetrar na intimidade de qualquer outra Alma (...) eu não podia salvar ninguém, pois ninguém tinha o poder de salvar um homem a não ser ele mesmo".
Os Pássaros foi publicado em junho 1936, três anos antes de a Segunda Guerra Mundial iniciar. No romance, nos deparamos com passagens nas quais podemos sentir o medo inflamar na sociedade. Há momentos em que o autor soa profético ao descrever o clima aterrador: 
“Percebi em tudo um sentimento terrível de instabilidade do falso mundo que havíamos erguido no lugar do mundo verdadeiro, que era nossa herança".


A metáfora que engolfa os pássaros é uma nuvem negra a se aproximar da cidade, e pode ser compreendida como o espelho desse medo de que algo muito ruim estava por vir. A meu ver, Os Pássaros é um romance apocalíptico, no qual as criaturas aladas simbolizam entidades diabólicas que são providas do que há de pior no ser humano.

Caro leitor, se um pássaro pousar em seu umbral, encare a si mesmo nos olhos hediondos dele.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Resenha - A Menina Submersa: Memórias, de Caitilín R. Kiernan


KIERNAN, Caitilín R. A Menina Submersa: Memórias. São Paulo: DarkSide Books, 2014. 320 p.

"A Menina Submersa: Memórias" foi o segundo livro da Editora DarkSide Books que eu adquiri (o primeiro foi Exorcismo) e sim, foi amor à primeira vista. Eu confesso que, a princípio, o que mais me chamou atenção no exemplar foi a aparência enigmática. Eu senti que aquele belo livro tinha algo muito importante a me dizer, e o meu sentir não estava errado. Algumas pessoas alegam haverem largado a leitura por ser de difícil entendimento, arrastada etc., e, sinceramente, pela experiência que eu tive, afirmo sem sombra de dúvidas: tais pessoas leram errado.
O teor do livro é meditativo, logo, nem pense em devorá-lo, pois essa obra carece de ser degustada.


A estória  é escrita e narrada em primeira pessoa por uma personagem esquizofrênica e a sua graça é India Morgan Phelps, mais conhecida como Imp (que significa criança levada em inglês). Eu aconselho que fiquem atentos à trama, porque a personagem conta a seu modo e da forma que consegue recordar. Quando Imp considera alguma lembrança demasiado árdua, ela não a cita, segue adiante falando sobre coisas menos complicadas e, ao retornar ao assunto anteriormente reprimido, ainda assim, faz rodeios.

  "Mas Jeane, pelo que você está falando, o livro realmente parece ser coisado" ─ de jeito nenhum, leitor cismado! Se você estiver determinado a compreender as divagações da narradora, com certeza será fisgado pela sua narrativa fantasmagórica.

O livro é recheado de trechos que são dignos de serem lidos e relidos diversas vezes, porque nos fascinam de uma forma diferente sempre que nos atrevemos a saboreá-los. E para provar que eu não estou exagerando, leia comigo, por favor:

"Gente morta, ideias mortas e supostamente momentos mortos nunca estão mortos de verdade e eles moldam cada momento de nossas vidas. Nós os ignoramos e isso os torna poderosos."

Imp deseja exorcizar seus demônios ao tentar escrever uma estória de fantasmas, eu a compreendo plenamente. A narradora é uma jovem orfã,  sua mãe e avó (ambas doentes mentais) se suicidaram, e essas tragédias reverberam drasticamente na mente de Imp quando ela passa a viver sozinha. Um dia, Imp encontra Abalyn, uma transexual que faz resenhas de video games, e logo elas engatam em um namoro. Tudo corre bem entre as pombinhas até Eva aparecer, uma mulher peculiar que Imp encontra paralisada na estrada. Segundo a narradora, esta mulher pode ser uma sereia, loba ou uma criatura sobrenatural. É sumamente importante mencionar que  talvez tudo seja fruto da esquizofrenia / depressão da contadora de estória, pois ela relaciona o canto desta "mulher-sereia" com o chamado da morte.


Não é à toa que esta obra é uma de minhas favoritas, hahaha! Deem uma chance a Imp, ela merece, e vocês, certamente, não irão se arrepender.
Beijinhos tenebrosos!

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Renego-me

Renego-me a esquecer
o que permiti acontecer
por mero descaso.
Renego-me a esquecer
que a vida reinou em mim,
mas eu a menosprezei,
porque o meu sentir era raso.
Renego-me a esquecer
que a ansiei, mas fui a causadora
do seu lancinante ocaso.
Renego-me,
e vislumbro-me perecer
a cada passo.

Autoria: Jeane Tertuliano

terça-feira, 23 de julho de 2019

Resenha - O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë


BRONTË, Emily. (1818 - 1848). O Morro dos Ventos Uivantes. São Paulo: Editora Landmark, 2012.

Título Original: Wuthering Heights
Tradução e Notas: Doris Goettems
Edição Bilingue: Português / Inglês
Edição Especial de Luxo

O Morro dos Ventos Uivantes conta a história da família Ernshaw a datar do instante no qual o Mr. Ernshaw leva para casa Heathcliff, que vem a se tornar irmão adotivo de Catherine e Hindley. Desde o princípio, houveram complicações da parte de Hindley em aceitar o novo membro da casa, ele ficou enciumado, pois o pai se apegara deveras ao “menino de rua”. Em compensação, Catherine via Heathcliff como companheiro para as suas meninices, o que mudara após o falecimento de Mr. Ernshaw (a Mrs. Ernshaw morreu anteriormente sem fornecimento de detalhes na narrativa) e o jovem Hindley acaba ficando responsável pela casa, fazendo de Heathcliff um empregado, humilhando-o constantemente.


A história se passa em uma localidade rural e não está sujeita à ascensão que ocorreu na capital no decurso da Revolução Industrial na Inglaterra. A propriedade da família Ernshaw chama-se “Wuthering Heights” ou em tradução livre para o português “O Morro dos Ventos Uivantes”, que intitula o romance. A narrativa também se passa em Thrushcross Grange (Granja Thrushcross), a propriedade dos vizinhos que não eram tão avizinhados, a família Linton.
O enredo toma um curso diferente após Catherine casar-se com Edgar Linton sem amá-lo. O seu verdadeiro amor era Heathcliff, mas como ele não era um homem de propriedades, ela o renegara. Após o ocorrido, Heathcliff vai embora, ausentando-se por dois anos, retornando rico e com o objetivo de se vingar de todos, sem exceção.
Os núcleos familiares construídos por Emily Brontë são complexos, assim como as suas personagens. Catherine é demasiado impulsiva e possuidora de uma personalidade forte. Heathcliff não é muito diferente dela, e por conta do seu anseio doentio por vingança, se torna um bárbaro.
O Morro dos Ventos Uivantes é um romance tão intricado que não nos permite afirmar se há personagens boas ou más. Há elementos góticos na narrativa. Nos deparamos com momentos aterrorizantes, misteriosos e sobrenaturais. A sua estrutura dramática advém de uma faustosa combinação de dois gêneros: o romantismo e o realismo inglês, na era vitoriana inglesa. 

Melhores quotes da obra:

"Um homem sensato deve encontrar companhia suficiente em si mesmo" p. 37

"Não é porque ele é bonito, Nelly, mas porque ele é mais eu do que eu própria. Não importa do que são feitas nossas almas, a dele e a minha são iguais" p. 97

"A maior razão da minha vida é ele. Se tudo desaparecesse e só ele restasse, continuaria a existir. E se tudo o mais permanecesse, e ele fosse aniquilado, o universo se tornaria um estranho, e eu não mais faria parte dele" p. 99

"traição e violência são lanças de dois gumes; ferem aqueles que recorrem a elas mais do que aos seus inimigos" p. 205

"O que não me faz recordá-la? Não posso olhar para este piso sem ver os seus traços impressos nos ladrilhos! Em cada nuvem, em cada árvore — enchendo o espaço à noite, e espelhando-se em cada objeto durante o dia — vivo rodeado por sua imagem! Os rostos mais comuns de homens e mulheres  — os meus próprios traços — zombam de mim com a semelhança. O mundo inteiro é uma terrível coleção de marcas da sua existência, e de que eu a perdi!" p. 375

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Análise da Peça Teatral Hamlet, de William Shakespeare

Antes de iniciar a análise dessa obra sublime, é mister que eu forneça um breve parecer acerca daquele que a concebeu. William Shakespeare (1564-1616) nasceu em Stratford-upon-Avon e é considerado um dos maiores na literatura mundial. Até hoje não se sabe ao certo a totalidade exata da vastidão das suas obras, mas é sabível que existem 34 peças, 154 sonetos, dois grandes poemas narrativos e outros diversos poemas.
Inicio o ensaio de Hamlet indicando aquele que fez florescer no coração do príncipe da Dinamarca o desejo por vingança: o suposto fantasma do finado rei Hamlet. Bernardo, Marcelo e Horácio são as primeiras personagens a vislumbrarem a aparição fantasmagórica do falecido rei Hamlet, este último tentou se comunicar com o fantasma, mas não obteve sucesso. Convencido de que o fantasma responderia somente ao seu filho, Hamlet, Horácio comenta com as demais testemunhas a necessidade de Hamlet ter ciência do ocorrido. Hamlet junta-se à guarda real durante a noite com o intuito de avistar o fantasma de seu finado pai, e este lhe fala sobre um crime cometido às escuras e que precisa ser revelado. O fantasma, alegando estar na danação para ludibriar o enlutado Hamlet, clama por vingança no Ato I, Cena V: 
“Fantasma: Está chegando a hora em que devo voltar para os tormentos das chamas sulfurosas.
Hamlet: Pobre Espectro!
Fantasma: Não lamentes, mas escuta, atento, o que revelo.
Hamlet: Fala; é meu dever ouvir-te.
Fantasma: E após ouvir, deve vingar-me.”
Ao ler estas falas, não consegui enxergar o sentimento paternal do suposto fantasma do rei para com o filho. Um pai de verdade não buscaria primordialmente confortar o coração do seu filho para somente depois esclarecer as causas da sua morte? A meu ver, esse deveria haver sido o proceder do espectro, mas não, trouxe consigo a tormenta e a alojou na mente e no coração do príncipe, para comprovar o que digo:
“Fantasma: Sou o Espectro de teu pai; condenado a vagar durante a noite, por algum tempo, e a jejuar de dia preso no fogo, até que este consuma e purifique as faltas criminosas que cometi em vida. Mas proibido de contar os segredos do meu cárcere, pois se os narrasse, a mínima palavra cortaria tu'alma e gelaria o próprio sangue jovem do teu corpo; faria teus dois olhos, como estrelas, saltar das órbitas, e teus cabelos eriçarem-se rijos, como as cerdas se eriçam no irritado porco-espinho. Mas revelar não posso o eterno arcano aos ouvidos humanos. Ouve! Escuta! Ouve! Se amaste um dia um pai querido...”
Haveria de restar alguma dúvida acerca da real intenção do espectro após eu sentir o asco consumir o meu ser ao notar o veneno existente no discurso dessa criatura vil? Ele não anseia por vingança, mas sim por desgraça! Ele foi o autor de todo mal que sobreveio ao pobre Hamlet, que teve de se fazer de louco, isso mesmo, Hamlet, sendo extremamente exposto a todos e quaisquer olheiros do rei, não poderia correr o risco de ter seus planos vingativos interrompidos. Aspirando a corrupção daquele meio, frustrada e dolorosamente, Hamlet quase perde a razão. Este age dissimuladamente, seu algoz e tio, Cláudio, não fez diferente, ambos usam o teatro dentro do próprio teatro, fazendo-se de joguetes, mas na verdade, são exímios jogadores. 
Por falar em perda da razão, lembro-me de Ofélia. Esta, ainda que estivesse apaixonada pelo príncipe, resolveu seguir os conselhos do pai, eu não a culpo por fazê-lo, afinal, se Hamlet a desonrasse, toda a vida da donzela seria convertida numa perdição. Contudo, ela sequer hesitou em renegar os sentimentos singelos do pobre Hamlet, vê-se isso claramente no Ato II, Cena I, quando Polônio questiona a filha acerca do desalento de Hamlet:
"Polônio: [...] Terás, acaso, usado ultimamente palavras muito duras?
Ofélia: Não, senhor.Mas, observando aquilo que ordenou, repeli suas cartas e neguei sua presença."
Hamlet, ao ser menosprezado por Ofélia, sucumbe avidamente à vingança, deixando os sentimentos amorosos que nutria pela jovem de lado. Ainda que ele tenha decidido se entregar à promessa de vingança feita ao espectro, anteriormente, Hamlet sentiu-se desolado, podemos vislumbrar a obrigatoriedade existente em seu lamento:
“[...] O mundo está fora dos eixos. Oh! Maldita sorte!... Por que nasci para colocá-lo em ordem! [...]”. (Ato I, Cena V).
Em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche diz que:
“[...] é o verdadeiro conhecimento, a visão da verdade, que aniquila todo ímpeto, todo motivo para agir, em Hamlet [...]”. (2007, p. 61). 
Na peça, o homem é retratado de uma maneira universal. Ele se encontra centralizado no palco, está a lutar pela sobrevivência da sua humanidade, humanidade esta que tenta abandoná-lo. Hamlet carrega nos ombros o peso do mundo, o fardo da vingança. Como Hamlet manteria a sua sanidade imune às enturvações dos pensamentos pesarosos que estavam a chicotear constantemente a sua consciência? Através do monólogo mais conhecido de Hamlet Ser ou não ser: eis a questão, somos direcionados novamente ao digamos que acovardamento da personagem, quando esta se torna consciente do que se passa de fato em Elsinore e se questiona, vê-se que não há mais a plena certeza de estar pronto para efetuar a vingança prometida. Hamlet olha ao seu redor e se ver em meio a uma corja de traidores, faladores da verdade, porém incomensuravelmente podres por dentro, aí é nesse momento que eu pressiono a mesma tecla novamente: como manter a sanidade imune?
Hamlet foi acometido por diversas traições no decorrer da trama. A primeira foi causada pelo seu tio Cláudio ao envenenar o próprio irmão Hamlet, o rei; em seguida, sua amada Ofélia deixa-se ser usada pelo pai para armar contra o príncipe, pelo qual ela nutre afeto. Polônio, pai de Ofélia, é o serviçal abominável do assassino do rei, possuidor de uma má índole tal como a de Cláudio. Até mesmo a sua própria mãe, Gertrudes, foi mais uma saqueadora da paz do jovem, que se casou com o irmão do falecido rei às pressas. Hamlet, ao conversar com Horácio, diz: 
"Os bolos fúnebres serviram para os frios do esposório. ”
Após essa declaração de Hamlet, eu fiquei aqui, jogando conversa fora com os meus botões, e nós inferimos algo, chegamos ao consenso de que talvez, e somente talvez, a rainha pudesse haver tido um affair com o perverso Cláudio enquanto o rei Hamlet ainda estava vivo. Não se pode negar que há essa possibilidade, sim, e digo mais: se titubear, é capaz de ela ter ciência do crime cometido por Cláudio. 
As traições não acabam por aí. Rosencrantz e Guildenstern, colegas de Hamlet da época do colégio, juntam-se aos demais abutres para destruir o injustiçado e tão amado pelo povo dinamarquês, Hamlet. Mediante as diversas divagações de Hamlet, me cabe somente compadecer-me da sua dor, que revestida de melancolia, o cegou; de certa forma, acabou o matando no fim, pois apesar de ser extremamente pensante e sentir que estava para ser guiado a uma armadilha, ele ignorou o resquício da razão que lhe sussurrou ao ouvido no Ato V, Cena II: 
"Mas não podes imaginar a angústia que sinto aqui no coração; mas não importa. [...] isso é tolice."
No fim, a morte devorou Ofélia, que ensandecida após o fim de Polônio (muito bem empregado por sinal), se pôs a devanear tal como aquele que ela traiu (Hamlet), e sucumbiu aos encantos funestos do ceifeiro.  A família real e o assassino de Hamlet, Laertes, também jazeram no solo contaminado pela corrupção e desamor dos habitantes de Elsinore.

Referências:
NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta & Hamlet. Trad. Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça, Barbara Heliodora. - [Ed. Especial]. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.