sábado, 7 de setembro de 2019

O Bluebird


em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo, fica aí dentro, eu não vou
deixar ninguém
te ver.

em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu taco uísque nele e respiro
fumaça de cigarro
e as putas e os barmen
e as caixas de mercado
nunca sabem que
ele está
aqui dentro.

em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo,
fica na tua, você quer me pôr
em apuros?
você quer sacanear a minha
obra?
ferrar com a minha venda de livros na
Europa?

em meu coração há um pássaro azul
louco para sair
mas eu sou mais esperto, só deixo ele sair
de noite, às vezes
quando todos estão dormindo
eu falo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

daí o ponho de volta,
mas ele ainda canta um pouco
aqui dentro, eu não o deixei morrer
totalmente
e a gente dorme junto desse
jeito
com nosso
pacto secreto
e isso é bem capaz de
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?

— Charles Bukowski, no livro "Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém". (7Letras, 2ª edição [2015]).

domingo, 1 de setembro de 2019

Resenha - Os Pássaros, de Frank Baker


BAKER, Frank. Os Pássaros. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2016. 304 p.

Após oitenta anos de sua publicação original, Os Pássaros, de Frank Baker, veio ao Brasil graças a Editora DarkSide Books.
Certo dia, a cidade de Londres foi invadida por milhares de pássaros. Eles voavam em grupo e pousavam em monumentos, como se perscrutassem o local e os cidadãos que os observavam. A princípio, eles se tornaram uma atração às pessoas, e estas questionavam-se acerca de onde e por que vieram. Contudo, não tardou para que os pássaros respondessem à última pergunta; do nada, eles passaram a perseguir, ferir e matar as pessoas.


Os Pássaros é um romance obscuro recheado de suspense. É narrado em primeira pessoa por um sobrevivente da época em que os pássaros chegaram à City. O narrador-personagem se encontra numa idade avançada e conta os fatos da maneira que consegue recordá-los para Anna, sua filha, fornecendo-lhe detalhes da vinda das criaturas aladas e de como foi a reação do público em geral. A história é narrada vagarosamente, para que possamos vivenciar as angústias do narrador, que nos agracia com os seus pensamentos filosóficos constantemente:

"Enquanto eu conhecesse as inesgotáveis forças de criação da Alma, não precisaria nunca temer a morte, pois a morte era uma palavra inventada por alguém cujo corpo havia perdido sua Alma. Quando esse corpo se aproximasse do fim, procederia ao ato final de oferecer-se à Alma, fortalecida dessa forma para sempre, iria se identificar com o outro universo de onde surgiu". 
"Em sua criação, um homem coloca todo o amor que jamais sentiu pelo mundo natural. Como uma homenagem à força criativa que o fez: uma assinatura de sua existência. O artista deve trabalhar para si; trabalhar somente para expressar a si mesmo, sem buscar nenhuma recompensa que não seja a satisfação  em saber que dele veio uma reafirmação da verdade".
"Eu soube, de uma maneira que jamais havia aceitado antes, que eu permanecia sozinho, que ninguém poderia invadir minha Alma. Tampouco eu poderia penetrar na intimidade de qualquer outra Alma (...) eu não podia salvar ninguém, pois ninguém tinha o poder de salvar um homem a não ser ele mesmo".
Os Pássaros foi publicado em junho 1936, três anos antes de a Segunda Guerra Mundial iniciar. No romance, nos deparamos com passagens nas quais podemos sentir o medo inflamar na sociedade. Há momentos em que o autor soa profético ao descrever o clima aterrador: 
“Percebi em tudo um sentimento terrível de instabilidade do falso mundo que havíamos erguido no lugar do mundo verdadeiro, que era nossa herança".


A metáfora que engolfa os pássaros é uma nuvem negra a se aproximar da cidade, e pode ser compreendida como o espelho desse medo de que algo muito ruim estava por vir. A meu ver, Os Pássaros é um romance apocalíptico, no qual as criaturas aladas simbolizam entidades diabólicas que são providas do que há de pior no ser humano.

Caro leitor, se um pássaro pousar em seu umbral, encare a si mesmo nos olhos hediondos dele.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Resenha - A Menina Submersa: Memórias, de Caitilín R. Kiernan


KIERNAN, Caitilín R. A Menina Submersa: Memórias. São Paulo: DarkSide Books, 2014. 320 p.

"A Menina Submersa: Memórias" foi o segundo livro da Editora DarkSide Books que eu adquiri (o primeiro foi Exorcismo) e sim, foi amor à primeira vista. Eu confesso que, a princípio, o que mais me chamou atenção no exemplar foi a aparência enigmática. Eu senti que aquele belo livro tinha algo muito importante a me dizer, e o meu sentir não estava errado. Algumas pessoas alegam haverem largado a leitura por ser de difícil entendimento, arrastada etc., e, sinceramente, pela experiência que eu tive, afirmo sem sombra de dúvidas: tais pessoas leram errado.
O teor do livro é meditativo, logo, nem pense em devorá-lo, pois essa obra carece de ser degustada.


A estória  é escrita e narrada em primeira pessoa por uma personagem esquizofrênica e a sua graça é India Morgan Phelps, mais conhecida como Imp (que significa criança levada em inglês). Eu aconselho que fiquem atentos à trama, porque a personagem conta a seu modo e da forma que consegue recordar. Quando Imp considera alguma lembrança demasiado árdua, ela não a cita, segue adiante falando sobre coisas menos complicadas e, ao retornar ao assunto anteriormente reprimido, ainda assim, faz rodeios.

  "Mas Jeane, pelo que você está falando, o livro realmente parece ser coisado" ─ de jeito nenhum, leitor cismado! Se você estiver determinado a compreender as divagações da narradora, com certeza será fisgado pela sua narrativa fantasmagórica.

O livro é recheado de trechos que são dignos de serem lidos e relidos diversas vezes, porque nos fascinam de uma forma diferente sempre que nos atrevemos a saboreá-los. E para provar que eu não estou exagerando, leia comigo, por favor:

"Gente morta, ideias mortas e supostamente momentos mortos nunca estão mortos de verdade e eles moldam cada momento de nossas vidas. Nós os ignoramos e isso os torna poderosos."

Imp deseja exorcizar seus demônios ao tentar escrever uma estória de fantasmas, eu a compreendo plenamente. A narradora é uma jovem orfã,  sua mãe e avó (ambas doentes mentais) se suicidaram, e essas tragédias reverberam drasticamente na mente de Imp quando ela passa a viver sozinha. Um dia, Imp encontra Abalyn, uma transexual que faz resenhas de video games, e logo elas engatam em um namoro. Tudo corre bem entre as pombinhas até Eva aparecer, uma mulher peculiar que Imp encontra paralisada na estrada. Segundo a narradora, esta mulher pode ser uma sereia, loba ou uma criatura sobrenatural. É sumamente importante mencionar que  talvez tudo seja fruto da esquizofrenia / depressão da contadora de estória, pois ela relaciona o canto desta "mulher-sereia" com o chamado da morte.


Não é à toa que esta obra é uma de minhas favoritas, hahaha! Deem uma chance a Imp, ela merece, e vocês, certamente, não irão se arrepender.
Beijinhos tenebrosos!

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Renego-me

Renego-me a esquecer
o que permiti acontecer
por mero descaso.
Renego-me a esquecer
que a vida reinou em mim,
mas eu a menosprezei,
porque o meu sentir era raso.
Renego-me a esquecer
que a ansiei, mas fui a causadora
do seu lancinante ocaso.
Renego-me,
e vislumbro-me perecer
a cada passo.

Autoria: Jeane Tertuliano

terça-feira, 23 de julho de 2019

Resenha - O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë


BRONTË, Emily. (1818 - 1848). O Morro dos Ventos Uivantes. São Paulo: Editora Landmark, 2012.

Título Original: Wuthering Heights
Tradução e Notas: Doris Goettems
Edição Bilingue: Português / Inglês
Edição Especial de Luxo

O Morro dos Ventos Uivantes conta a história da família Ernshaw a datar do instante no qual o Mr. Ernshaw leva para casa Heathcliff, que vem a se tornar irmão adotivo de Catherine e Hindley. Desde o princípio, houveram complicações da parte de Hindley em aceitar o novo membro da casa, ele ficou enciumado, pois o pai se apegara deveras ao “menino de rua”. Em compensação, Catherine via Heathcliff como companheiro para as suas meninices, o que mudara após o falecimento de Mr. Ernshaw (a Mrs. Ernshaw morreu anteriormente sem fornecimento de detalhes na narrativa) e o jovem Hindley acaba ficando responsável pela casa, fazendo de Heathcliff um empregado, humilhando-o constantemente.


A história se passa em uma localidade rural e não está sujeita à ascensão que ocorreu na capital no decurso da Revolução Industrial na Inglaterra. A propriedade da família Ernshaw chama-se “Wuthering Heights” ou em tradução livre para o português “O Morro dos Ventos Uivantes”, que intitula o romance. A narrativa também se passa em Thrushcross Grange (Granja Thrushcross), a propriedade dos vizinhos que não eram tão avizinhados, a família Linton.
O enredo toma um curso diferente após Catherine casar-se com Edgar Linton sem amá-lo. O seu verdadeiro amor era Heathcliff, mas como ele não era um homem de propriedades, ela o renegara. Após o ocorrido, Heathcliff vai embora, ausentando-se por dois anos, retornando rico e com o objetivo de se vingar de todos, sem exceção.
Os núcleos familiares construídos por Emily Brontë são complexos, assim como as suas personagens. Catherine é demasiado impulsiva e possuidora de uma personalidade forte. Heathcliff não é muito diferente dela, e por conta do seu anseio doentio por vingança, se torna um bárbaro.
O Morro dos Ventos Uivantes é um romance tão intricado que não nos permite afirmar se há personagens boas ou más. Há elementos góticos na narrativa. Nos deparamos com momentos aterrorizantes, misteriosos e sobrenaturais. A sua estrutura dramática advém de uma faustosa combinação de dois gêneros: o romantismo e o realismo inglês, na era vitoriana inglesa. 

Melhores quotes da obra:

"Um homem sensato deve encontrar companhia suficiente em si mesmo" p. 37

"Não é porque ele é bonito, Nelly, mas porque ele é mais eu do que eu própria. Não importa do que são feitas nossas almas, a dele e a minha são iguais" p. 97

"A maior razão da minha vida é ele. Se tudo desaparecesse e só ele restasse, continuaria a existir. E se tudo o mais permanecesse, e ele fosse aniquilado, o universo se tornaria um estranho, e eu não mais faria parte dele" p. 99

"traição e violência são lanças de dois gumes; ferem aqueles que recorrem a elas mais do que aos seus inimigos" p. 205

"O que não me faz recordá-la? Não posso olhar para este piso sem ver os seus traços impressos nos ladrilhos! Em cada nuvem, em cada árvore — enchendo o espaço à noite, e espelhando-se em cada objeto durante o dia — vivo rodeado por sua imagem! Os rostos mais comuns de homens e mulheres  — os meus próprios traços — zombam de mim com a semelhança. O mundo inteiro é uma terrível coleção de marcas da sua existência, e de que eu a perdi!" p. 375

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Análise da Peça Teatral Hamlet, de William Shakespeare

Antes de iniciar a análise dessa obra sublime, é mister que eu forneça um breve parecer acerca daquele que a concebeu. William Shakespeare (1564-1616) nasceu em Stratford-upon-Avon e é considerado um dos maiores na literatura mundial. Até hoje não se sabe ao certo a totalidade exata da vastidão das suas obras, mas é sabível que existem 34 peças, 154 sonetos, dois grandes poemas narrativos e outros diversos poemas.
Inicio o ensaio de Hamlet indicando aquele que fez florescer no coração do príncipe da Dinamarca o desejo por vingança: o suposto fantasma do finado rei Hamlet. Bernardo, Marcelo e Horácio são as primeiras personagens a vislumbrarem a aparição fantasmagórica do falecido rei Hamlet, este último tentou se comunicar com o fantasma, mas não obteve sucesso. Convencido de que o fantasma responderia somente ao seu filho, Hamlet, Horácio comenta com as demais testemunhas a necessidade de Hamlet ter ciência do ocorrido. Hamlet junta-se à guarda real durante a noite com o intuito de avistar o fantasma de seu finado pai, e este lhe fala sobre um crime cometido às escuras e que precisa ser revelado. O fantasma, alegando estar na danação para ludibriar o enlutado Hamlet, clama por vingança no Ato I, Cena V: 
“Fantasma: Está chegando a hora em que devo voltar para os tormentos das chamas sulfurosas.
Hamlet: Pobre Espectro!
Fantasma: Não lamentes, mas escuta, atento, o que revelo.
Hamlet: Fala; é meu dever ouvir-te.
Fantasma: E após ouvir, deve vingar-me.”
Ao ler estas falas, não consegui enxergar o sentimento paternal do suposto fantasma do rei para com o filho. Um pai de verdade não buscaria primordialmente confortar o coração do seu filho para somente depois esclarecer as causas da sua morte? A meu ver, esse deveria haver sido o proceder do espectro, mas não, trouxe consigo a tormenta e a alojou na mente e no coração do príncipe, para comprovar o que digo:
“Fantasma: Sou o Espectro de teu pai; condenado a vagar durante a noite, por algum tempo, e a jejuar de dia preso no fogo, até que este consuma e purifique as faltas criminosas que cometi em vida. Mas proibido de contar os segredos do meu cárcere, pois se os narrasse, a mínima palavra cortaria tu'alma e gelaria o próprio sangue jovem do teu corpo; faria teus dois olhos, como estrelas, saltar das órbitas, e teus cabelos eriçarem-se rijos, como as cerdas se eriçam no irritado porco-espinho. Mas revelar não posso o eterno arcano aos ouvidos humanos. Ouve! Escuta! Ouve! Se amaste um dia um pai querido...”
Haveria de restar alguma dúvida acerca da real intenção do espectro após eu sentir o asco consumir o meu ser ao notar o veneno existente no discurso dessa criatura vil? Ele não anseia por vingança, mas sim por desgraça! Ele foi o autor de todo mal que sobreveio ao pobre Hamlet, que teve de se fazer de louco, isso mesmo, Hamlet, sendo extremamente exposto a todos e quaisquer olheiros do rei, não poderia correr o risco de ter seus planos vingativos interrompidos. Aspirando a corrupção daquele meio, frustrada e dolorosamente, Hamlet quase perde a razão. Este age dissimuladamente, seu algoz e tio, Cláudio, não fez diferente, ambos usam o teatro dentro do próprio teatro, fazendo-se de joguetes, mas na verdade, são exímios jogadores. 
Por falar em perda da razão, lembro-me de Ofélia. Esta, ainda que estivesse apaixonada pelo príncipe, resolveu seguir os conselhos do pai, eu não a culpo por fazê-lo, afinal, se Hamlet a desonrasse, toda a vida da donzela seria convertida numa perdição. Contudo, ela sequer hesitou em renegar os sentimentos singelos do pobre Hamlet, vê-se isso claramente no Ato II, Cena I, quando Polônio questiona a filha acerca do desalento de Hamlet:
"Polônio: [...] Terás, acaso, usado ultimamente palavras muito duras?
Ofélia: Não, senhor.Mas, observando aquilo que ordenou, repeli suas cartas e neguei sua presença."
Hamlet, ao ser menosprezado por Ofélia, sucumbe avidamente à vingança, deixando os sentimentos amorosos que nutria pela jovem de lado. Ainda que ele tenha decidido se entregar à promessa de vingança feita ao espectro, anteriormente, Hamlet sentiu-se desolado, podemos vislumbrar a obrigatoriedade existente em seu lamento:
“[...] O mundo está fora dos eixos. Oh! Maldita sorte!... Por que nasci para colocá-lo em ordem! [...]”. (Ato I, Cena V).
Em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche diz que:
“[...] é o verdadeiro conhecimento, a visão da verdade, que aniquila todo ímpeto, todo motivo para agir, em Hamlet [...]”. (2007, p. 61). 
Na peça, o homem é retratado de uma maneira universal. Ele se encontra centralizado no palco, está a lutar pela sobrevivência da sua humanidade, humanidade esta que tenta abandoná-lo. Hamlet carrega nos ombros o peso do mundo, o fardo da vingança. Como Hamlet manteria a sua sanidade imune às enturvações dos pensamentos pesarosos que estavam a chicotear constantemente a sua consciência? Através do monólogo mais conhecido de Hamlet Ser ou não ser: eis a questão, somos direcionados novamente ao digamos que acovardamento da personagem, quando esta se torna consciente do que se passa de fato em Elsinore e se questiona, vê-se que não há mais a plena certeza de estar pronto para efetuar a vingança prometida. Hamlet olha ao seu redor e se ver em meio a uma corja de traidores, faladores da verdade, porém incomensuravelmente podres por dentro, aí é nesse momento que eu pressiono a mesma tecla novamente: como manter a sanidade imune?
Hamlet foi acometido por diversas traições no decorrer da trama. A primeira foi causada pelo seu tio Cláudio ao envenenar o próprio irmão Hamlet, o rei; em seguida, sua amada Ofélia deixa-se ser usada pelo pai para armar contra o príncipe, pelo qual ela nutre afeto. Polônio, pai de Ofélia, é o serviçal abominável do assassino do rei, possuidor de uma má índole tal como a de Cláudio. Até mesmo a sua própria mãe, Gertrudes, foi mais uma saqueadora da paz do jovem, que se casou com o irmão do falecido rei às pressas. Hamlet, ao conversar com Horácio, diz: 
"Os bolos fúnebres serviram para os frios do esposório. ”
Após essa declaração de Hamlet, eu fiquei aqui, jogando conversa fora com os meus botões, e nós inferimos algo, chegamos ao consenso de que talvez, e somente talvez, a rainha pudesse haver tido um affair com o perverso Cláudio enquanto o rei Hamlet ainda estava vivo. Não se pode negar que há essa possibilidade, sim, e digo mais: se titubear, é capaz de ela ter ciência do crime cometido por Cláudio. 
As traições não acabam por aí. Rosencrantz e Guildenstern, colegas de Hamlet da época do colégio, juntam-se aos demais abutres para destruir o injustiçado e tão amado pelo povo dinamarquês, Hamlet. Mediante as diversas divagações de Hamlet, me cabe somente compadecer-me da sua dor, que revestida de melancolia, o cegou; de certa forma, acabou o matando no fim, pois apesar de ser extremamente pensante e sentir que estava para ser guiado a uma armadilha, ele ignorou o resquício da razão que lhe sussurrou ao ouvido no Ato V, Cena II: 
"Mas não podes imaginar a angústia que sinto aqui no coração; mas não importa. [...] isso é tolice."
No fim, a morte devorou Ofélia, que ensandecida após o fim de Polônio (muito bem empregado por sinal), se pôs a devanear tal como aquele que ela traiu (Hamlet), e sucumbiu aos encantos funestos do ceifeiro.  A família real e o assassino de Hamlet, Laertes, também jazeram no solo contaminado pela corrupção e desamor dos habitantes de Elsinore.

Referências:
NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta & Hamlet. Trad. Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça, Barbara Heliodora. - [Ed. Especial]. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

domingo, 12 de maio de 2019

Morte Súbita


Em meados de dezembro do ano de 2012, despertei de um pesadelo incomensuravelmente nebuloso. Nesta dimensão em que me encontro após ter falecido, paira um constante silêncio. Aqui não há alegria, tampouco tristeza, a neutralidade é o plano de fundo desse devaneio macabro que parece não ter fim. Apenas sei que não estou bem. Sinto falta dos meus entes queridos, dos meus escritos. E pensar que um dia ousei dizer: hei de morrer se me privarem do ato de escrever. Agora, isolada num mundo no qual não sei cronometrar o tempo, existo em função dos poucos instantes em que consigo vislumbrar aqueles que já não posso mais tocar. Sabrina, uma morta que conheci ultimamente, me explicou que essas minhas aparições no mundo dos mortais se dão graças à minha constante presença em suas memórias. É gratificante saber que ainda não me tornei uma defunta deveras esquecida, mas, ainda assim, sinto-me infeliz ao pensar que, quando não mais houver o meu resquício em seus pensamentos, automaticamente sucumbirei ao silêncio eterno. 
Eu era uma jovem peculiar, assim diziam os meus amigos em todas as vezes que ousaram tentar me descrever. Caminhava, sempre que possível no cemitério São Lázaro, no Rio de Janeiro. Enquanto eu vagava entre os túmulos feito uma alma penada, os espíritos ali presos sussurravam desgraças belíssimas no ouvido do meu outro Eu obscuro. A maior parte dos meus escritos foram concebidos naquele solo acolhedor dos que já se foram. Não é de admirar que os meus familiares tenham decidido me enterrar neste lugar, afinal de contas, eu meio que já morava aqui em vida, logo seria mais que adequado retornar ao meu segundo lar tenebroso. 
Conheci John numa noite de lua cheia. Ele estava revestido de trevas, o negror de suas vestimentas atraindo não somente o meu olhar, mas também o dos demais universitários presentes naquele evento literário. O meu amado declamou o meu poema favorito: "O corvo", de Edgar Allan Poe, extremamente propício para o Halloween. Comemoramos aquela data nos seguintes anos de uma maneira especial: promovíamos um evento nesse local que você está pensando mesmo — sim, no tão idolatrado cemitério. 
Hoje, após cinco anos da ausência do meu corpo, ainda recebo daquele que amo flores brancas tingidas de preto. Eu sei que deveria desejar a sua felicidade ao lado de outro alguém, até porque já não habito o mesmo meio que ele, mas não consigo ignorar o que sinto. Algo me diz que ele precisa de mim da mesma maneira que eu necessito dele para não sucumbir ao vazio eterno. Decidi tentar me comunicar com ele hoje, pois, se o meu amor resistiu à morte, nossa conexão há de prevalecer mesmo que minha carne seja inexistente.
***
— John, vem para a cama. Que diabos você faz nessa escrivaninha todas as noites? 
— Se eu não escrever, Karen, hei de enlouquecer. 
— Você ainda pensa naquela sua noiva que faleceu? Como é possível, John?! Ela morreu há cinco anos, você precisa seguir em frente!
— Por favor, não me venha com seus sermões! Antes de namorarmos, eu a alertei sobre a minha situação emocional. Foi muito difícil para mim, tive que aprender a viver sem a mulher da minha vida, ela era tudo para mim. Fiquei sem chão quando a morte a tirou dos meus braços. O médico alegou ter sido um infarto, mas ela era uma moça tão jovem! 
— Chega, John! Cansei de ouvi-lo se declarar para outra! Como ousa continuar a escrever poemas para a Elisabeth, sendo que você tem a mim ao seu lado? Eu te amo, John! 
— Perdão, Karen, mas eu não consigo esquecê-la. Algo me impede de me entregar totalmente à nossa relação. 
Karen se levantou num rompante, pescou suas roupas no guarda-roupa e saiu porta afora. Segundos depois, voltou com os olhos marejados e jogou a aliança no noivo. 
— Não irei dividi-lo com uma defunta, John, não mais! 
Elisabeth, que sondava por ali naquele momento, sorriu ao presenciar o fim do noivado de John. Seguiu Karen até a varanda e lhe rogou uma praga. A mulher sentiu um arrepio percorrer o corpo, como se o próprio mal houvesse lhe tocado a alma, Mal sabia a pobre moça que sequer chegaria a vislumbrar a estrela da manhã no dia seguinte. 
John foi acometido por inúmeros pesadelos durante a noite. Elisabeth se deitou ao seu lado na cama de casal, ocupando o seu antigo lugar, vigiando o sono do amado de forma assustadora. Seus olhos, desprovidos de vida, não piscaram sequer uma vez. John sentiu frio a noite toda e, ao acordar, sentiu uma fadiga devoradora sugar-lhe as forças. Naquele dia, ele não foi trabalhar. Sentia-se inútil, sozinho e melancólico. Se antes a vida lhe parecia algo trivial, agora passara a ter certeza de que já não suportaria existir por mais um dia. Vasculhou a casa inteira à procura de algum medicamento que, tomado em quantidade demasiada, resultasse no fim daquele inferno terrestre. Elisabeth, ao compreender a intenção do amante, tentou chamar a sua atenção, queria fazê-lo enxergar que havia uma luz no fim do túnel. Ela seria a sua luz.
Após uma longa busca na casa inteira, John se pôs a chorar desesperadamente. Ele ansiava por paz, já não se importava com o sonho de se tornar um poeta renomado. Àquela altura do campeonato, seus sonhos haviam se tornado utópicos, totalmente infrutíferos, devaneios de um homem infeliz. Elisabeth, desesperada, tentou tocá-lo. John sentiu seus pelos eriçarem, um frio glacial tomou conta do recinto. 
— Lis? — chamou John, com urgência na voz. 
— Por favor, Lis, se você está aqui, dê-me um sinal, não me deixe nutrir esperanças, me ajude a dar cabo dessa existência insalubre. 
Ao ver o desalento do amado, Elisabeth decidiu ajudá-lo. Procurou na estante um livro que ela havia dado a ele um mês antes de falecer, Eu e outras poesias, de Augusto dos Anjos. Ao encontrá-lo, o espírito absorveu energia do ambiente e tentou retirar o objeto. Depois de uns instantes de total concentração, conseguiu fazer com que o livro caísse no chão. Quando John escutou o barulho vindo do seu quarto de leitura, saiu em disparada. Ao adentrar o local, John vislumbrou o livro no chão. Caminhando vagarosamente, se abaixou e o tomou para si. Com um sorriso alucinado nos lábios, disse: 
— Ah, Lis, tu bem sabes que a dor ocasionada pela tua ausência acabará me privando da vida. 
Elisabeth se regozijou. Passar meia década no vale dos mortos fez com que sua humanidade apodrecesse, levando-a a induzir à morte o homem que ela dizia amar com tanto fervor. Enquanto isso, na TV, os jornais locais noticiavam um acidente que resultou na morte de uma jovem. O veículo da moça foi de encontro a uma árvore minutos depois de ela ter saído da casa do noivo, John Neves. Pessoas que passavam pelo local antes do acontecimento alegaram ter visto o carro desviar abruptamente, como se a motorista houvesse se deparado com um obstáculo inexistente. "Todas as testemunhas foram coerentes ao descreverem a cena e não houve contradição nos depoimentos", afirmou o delegado que acompanhava o caso. 
Na casa de John, o silêncio reinava. Enquanto ele escrevia seu último poema, Elisabeth o observava tal como um abutre a espreitar sua presa. Em vida, a moça amava o talento de John, sentia-se orgulhosa de poder chamá-lo de seu, tornando-se uma contista assídua após se envolver com alguém que tinha o mesmo hobby que ela. A escrita transformou-se em algo vital depois que ela conheceu uma inspiração que prometia se fazer presente em sua vida para toda a eternidade. Contudo, o destino foi cruel e lhe privou da felicidade que era tê-lo para si. John sofreu imensamente com a ausência de sua amada. Ela, por outro lado, nutriu sentimentos abomináveis, principalmente quando o amado conheceu outra mulher, o que enfureceu Elisabeth. Ela se tornou um espírito vingativo; precisava ver o amado infeliz, afinal, sentia-se vazia, abandonada naquela dimensão repleta de seres macabros. De tanto conviver com aquelas criaturas, ela acabou se convertendo em uma delas. 
— John?! 
Lá fora, uma voz gritava pelo suicida. Elisabeth, irada com a interrupção, disparou em direção à porta para confrontar o intruso. 
Do outro lado da porta, um velho conhecido de Karen chamava por John. Era o padre Joseph, aflito, pois conhecia bem o casal e receava que a infelicidade de Karen houvesse feito com que a mulher cometesse suicídio. Aquela hipótese não saía de sua cabeça, ele precisava ouvir uma explicação de John. Embora estivesse muito abalado, Joseph notou que havia algo de errado. Era um padre experiente e por isso cogitou a possibilidade de haver uma presença espiritual extremamente negativa naquela residência. Sem mais delongas, o homem abriu a porta. O recinto estava gélido, o que era bem incomum em uma casa sem condicionador de ar em pleno verão. A presença dele incomodou Elisabeth. O padre irradiava uma força que a reprimia, e ela não queria partir sem terminar o que começou. 
— John, você está bem? -— gritou o padre. 
John, não muito distante, com uma lâmina na mão direita, prestes a cortar o pulso esquerdo, assustou-se e deixou o objeto cortante cair, erguendo-se e andando em direção à voz que o chamava.
— Oi, padre Joseph, A Karen não está aqui comigo, caso o senhor não tenha percebido. 
— Como ousa falar desse jeito, John?! 
— Eu expliquei a ela minha condição e ela decidiu partir, padre. Eu faria o mesmo, caso estivesse no lugar dela.
— Você está me dizendo que ela bateu naquela árvore de propósito, John?
— Que árvore? Do que o senhor está falando? 
— Vai dizer que já se esqueceu da noiva que faleceu ontem? 
— A minha noiva faleceu há cinco anos, e não, nunca hei de esquecê-la.
— Você andou usando alguma erva, rapaz? Estou falando da Karen. Naquele instante, John sentiu um peso absurdo assolar sua consciência. Lágrimas brotaram dos seus olhos enquanto ele tentava processar aquela notícia terrível. Ele não a amava, porém nunca desejou o seu mal. Karen sempre foi uma excelente companheira, mas, infelizmente, cometeu um grande erro ao se apaixonar pelo homem errado.
— Perdão, padre. Eu não saí de casa desde que Karen foi embora. Meu Deus, ela se matou? Eu entendi direito? Isso não pode ser verdade, Karen é religiosa demais para cometer suicídio, o senhor bem sabe disso. 
—- Não se sabe ao certo se foi proposital, mas todas as testemunhas afirmaram que o carro de Karen desviou subitamente, como se houvesse um obstáculo a impedindo de passar; mas não havia nada, entendeu?
— Isso não faz o menor sentido. Karen jamais faria isso. Eu sei que ela estava magoada, mas em nenhum momento ela me deu algum indício de que se mataria. Será que... Não, estou imaginando coisas. Pobre Karen, não merecia esse fim. 
—- Você suspeita de alguma coisa, John? 
— Nada que possa ser comprovado, padre.
— Fale, John. Eu preciso compreender o que realmente aconteceu.
— O senhor acharia que estou louco, e não é para menos, mas...
— Fale! 
— Padre, se o senhor não houvesse aparecido, neste exato momento eu estaria morto. Lis esteve aqui, a minha Elisabeth. Fiquei aflito após ser abandonado por Karen, uma melancolia repentina me dominou e eu desejei morrer, padre. Clamei por Lis. No início, ela não se pronunciou, mas quando eu estava prestes a desistir do fim, ela me mostrou um livro, quer dizer, ela o fez despencar da estante. Eu entendi que ela desejava que eu sucumbisse ao vazio eterno, tal como ela o fez. Somente Elisabeth sabe que eu guardo lâminas na gaveta do armário, padre. Tenho certeza de que ela esteve aqui. 
— Você quer dizer que a finada Elisabeth pode ter alguma coisa a ver com o acidente?
— Eu não disse isso, padre, foi apenas algo sem nexo que passou pela minha cabeça. A Elisabeth era uma boa pessoa, ela nunca faria mal a Karen.
— Se realmente for verdade o que você me contou, tenho certeza de que ela teria coragem de matar Karen, John, pois até mesmo o homem que a ama ela queria destruir. Encare os fatos. Talvez ela não seja a mesma de antes.
— Padre...
Repentinamente, uma lâmina se chocou contra a clavícula do padre, que, aturdido, levou a mão ao ferimento. Não havia sido profundo, a lâmina não havia sido jogada com força o suficiente para causar danos maiores. John, ao ver o que o espírito de sua amada fora capaz de fazer, passou a duvidar das intenções de Lis. Ele foi até o padre para dar uma olhada no ferimento. Ambos ficaram em silêncio, alertas ao próximo passo do fantasma.
— Eu senti a presença dela quando cheguei à sua casa, John. Era uma energia negativa, havia um escudo de aura negra. Ela não queria que você sobrevivesse.
— Como ela pode ter se tornado tão má, padre? O que eu fiz para despertar a sua ira? Eu a amei em vida e após a sua morte fui leal à sua memória! Eu não compreendo...
— A essência dela pode ter sido corrompida, John. 
— Não sabemos o destino que seu espírito seguiu após o fim da vida terrestre. 
— Não consigo suportar a ideia de ela ter se transformado em algo maléfico. Desejo que ela tenha paz do outro lado. O senhor poderia orar por ela? Precisamos ajudá-la a encontrar a luz, senão ela poderá machucar outras pessoas ou até mesmo matar alguém. Pobre Karen... 
— Precisamos exorcizar o espírito dela, John, e, depois que ela se for, você precisará remover de sua mente a ideia de tê-la para si. Você precisa deixá-la ir, John. 
— Está bem, padre. 
O cômodo ficou ainda mais gélido. Elisabeth sentiu uma fúria imensurável ao ouvir o seu amado abrindo mão dela tão facilmente; ficou transtornada de ciúmes. Por conta da morte de Karen, John passou a ver Elisabeth como um monstro, e aquilo era inaceitável. Os objetos da sala começaram a flutuar. O padre deu início ao exorcismo, e John orava em silêncio, com os olhos fechados. Se Deus realmente existe, pensou ele, com certeza há de libertar a alma de Lis e guiá-la para a paz. 
Depois de longos dez minutos de oração, os objetos que antes flutuavam se espatifaram no chão. John sussurrou: "Vai em paz, Lis", e o padre Joseph finalizou o exorcismo com o sinal da cruz. Na mesma hora, o calor retornou à casa. A energia negativa havia se esvaído e John já não se sentia doente. Tudo parecia calmo e em seu devido lugar. Elisabeth havia partido, tudo iria entrar nos eixos, pensou o padre Joseph. 
John levou cerca de uma hora para arrumar a casa, que parecia ter sido virada do avesso. Exausto, deitou-se no sofá e logo pegou no sono. A princípio, a tranquilidade reinou. Ele sonhou com Karen - ela estava em um lugar bonito e parecia estar muito feliz. John foi ao seu encontro e a abraçou com força, sentindo um cheuro de rosas, mas nao eram quaisquer rosas; era o mesmo aroma das rosas que ele comprara para pôr no túmulo de Elisabeth. Assustado. John se desvencilhou de Karen e, desconfiado, analisou o lugar. Tudo parecia belo como no início. Ele olhou nos olhos de Karen e viu um ressentimento muito intenso neles... 
— Perdão, Karen, eu não soube dar valor a você, eu te fiz infeliz. 
Lágrimas jorraram dos olhos de John. Ele realmente estava arrependido de não ter se esforçado mais para fazer aquela moça que tanto lhe amou, feliz. Ele se aproximou novamente dela e sentiu vontade de beijá-la uma última vez, afinal, talvez fosse isso que ela desejara ao visitá-lo em sonho: se despedir. Quando John aproximou seus lábios dos dela, o rosto de Karen assumiu uma nova forma. Parecia o de Elisabeth, mas estava terrivelmente deformado. Ela agarrou-se ao corpo de John, o odor da putrefação impregnando o ar. Gargalhando insanamente, Elisabeth sussurrou no ouvido dele: "Vim buscar você, meu amado".

Jeane Tertuliano, no livro "Postumus - Relatos Sombrios". Org. Juliana Daglio. São Paulo: Rouxinol Editora, 2018.