No fim, restou-me apenas
o silêncio ecoante da solidão.
A melancolia inundou-me a alma
e fez da minha sanidade,
refém.
Pudera eu haver padecido
ou, quem sabe, nunca haver nascido!
Pois, apenas dessa forma,
eu não sentiria a agonia da não despedida
que é lhe perder sem ao menos havê-lo tido.
O mar dos meus olhos mantém-se fluindo
em direção ao além-mundo
Infindo.
Autoria: Jeane Tertuliano
sexta-feira, 5 de abril de 2019
terça-feira, 5 de março de 2019
Resenha - Psicose, de Robert Bloch
ROBERT, Bloch. Psicose; tradução de Anabela Paiva. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2013. 240 p.: classic edition.
No primeiro capítulo da narrativa, Bloch fornece ao leitor fragmentos da rotina dos Bates, contudo, o desenrolar da trama tem foco na secretária Marion Crane, que é uma antiga funcionária de um escritório imobiliário.
Certo dia, seu superior a encarrega de depositar uma quantia considerável de dinheiro. Esta, vendo a oportunidade de mudar de vida, foge com o valor. Longe dali, ela é surpreendida por uma tempestade e acaba errando o caminho, indo parar no hotel da família Bates.
Psicose é um thriller de suspense que conduz e manipula o leitor a questionar-se acerca do que irá acontecer sem dar indícios de como será o desfecho da narração.
O autor oferece somente aquilo que toma por essencial, guiando seu leitor para onde bem entende, alvejando o ponto culminante da estória na execução do apogeu derradeiro.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
Resenha - Mulheres, de Charles Bukowski
Mulheres, assim como as demais narrativas de Buk, mostra um espelho das nossas prisões. O álcool, insígnia da embriaguez, nos apresenta uma espécie de fuga das amarras da vil realidade.
Chinaski, pseudônimo de Bukowski, diz:
"Eu era uma soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus, idéias, ideais, nem me preocupava com política. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante; dava muito trabalho. Eu queria mesmo era um espaço sossegado e obscuro para viver minha solidão. Por outro lado, de porre, eu abria o berreiro, pirava, queria tudo e não conseguia nada. Um tipo de comportamento não casava com o outro. Pouco importava.”
O parágrafo acima resume o que nós vislumbramos da personagem, sem generalizar. Contudo, cada um de nós é preguiçoso e ambicioso a seu modo, não é mesmo?
É relevante mencionar que Chinaski escrevia somente após haver bebido bastante, ele era um alcoólatra.
Eu realmente gosto desse tipo de literatura, que fornece um retrato visceral da realidade. Em suma, deem uma chance a Buk, pois o velho safado carece de ser lido.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
Resenha - Edgar Allan Poe: A Critical Biography, de Arthur Hobson Quinn
Enquanto letróloga e profunda admiradora do Mestre Edgar A. Poe, afirmo: se há uma biografia digna de ser lida, certamente, é esta. A presente obra é fruto das incontáveis pesquisas de Quinn, que, em suma, fornece evidências de que Griswold (o primeiro biógrafo do autor) fez modificações em algumas das cartas de Poe para que desse a entender que este apoiava suas alegações distorcidas.
Quinn também aborda questões referentes a bebida. Poe tinha algum tipo de disfunção metabólica quando se tratava de beber álcool. Enquanto muitas pessoas bebem garrafas de vinho e não obtêm a reputação de serem alcoólatras, Poe, por outro lado, parecia estar embriagado por dias após beber apenas um copo de vinho.
Quando Virginia (sua prima e amada) estava prestes a falecer, devido à tuberculose que veio a lhe matar, o desespero de Poe o fez recorrer à bebida.
O eu-enamorado de Poe parece nunca haver sido capaz de reconhecer a tuberculose de Virginia — sempre alegando que ela havia estourado um vaso sanguíneo cantando.
Arthur diz que a poesia de Poe é a sua maior conquista. Quando ele discute sobre as obras dele, é na poesia que se demora. O biógrafo afirma que Poe produziu poemas altamente originais e eficazes, mesmo que seu entendimento escrito sobre a teoria e a história do verso inglês não haja sido tão bom, sendo Eureka a única exceção.
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Quinn foi o primeiro biógrafo a documentar extensivamente as falsificações e mentiras do executor literário malignamente inteligente de Poe: o reverendo Rufus Griswold. O dito cujo foi demasiado astuto em seu enegrecimento do caráter de Poe e na estimativa da sua obra.
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Recomendo esta biografia crítica àqueles que amam a escrita de Poe e anseiam conhecê-lo verdadeiramente, pois não há outra obra acadêmica que exponha com tanta propriedade quem realmente foi Edgar Allan Poe.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2018
Lapso
A véspera de Natal finalmente havia chegado àquela vila localizada entre as montanhas. Juntamente dela, uma nevasca achegou-se sorrateiramente durante a noite e assolou o lugar sem ao menos fornecer uma prévia de todo o isolamento que acometeria às famílias que ali residiam. Antes de a noite cair, Samantha esteve a observar o portão que pendia na entrada da rua sem saída, ela questionara diversas vezes sobre qual seria o presente que o Papai Noel traria para ela.
Ela também gostaria de saber quais presentes o bom velhinho levaria às outras dezenove casas. Ela sonhara com aquele momento, e como sonhara! Samantha sentiu-se feliz ao acordar.
Apesar de o senhor e a senhora Martins terem uma renda mensal humilde, eles haviam economizado durante meses para que seus filhos, Paul e Samantha, pudessem desfrutar de uma ceia decente, e, por sorte, sobrara uma pequena quantia para que as crianças se alegrassem ao avistarem os presentes que há anos pediam incessantemente ao pai e a mãe.
Paul era um garoto sapeca. Diferente da sua irmã, ele reclamava de tudo, nada era o bastante para deixá-lo contente. Sua mãe, Sara, sempre se perguntara de quem a criança herdara aquele gênio, pois Peter era um homem extremamente calmo, sequer se zangava quando Paul aprontava uma das suas traquinagens. Contudo, era véspera de Natal, a tempestade de neve havia alterado o humor de Paul a tal ponto que Samantha estava receosa de aquela mudança repentina ser fingimento do seu irmão.
Às vinte horas, a família se reuniu ao redor da mesa e contemplou a refeição por alguns segundos. Logo em seguida, Samantha se pronunciou alegremente, cantarolando:
─ Mamãe, mamãe, eu posso fazer uma oração para o Papai do céu antes de comermos?
─ Claro, meu amor ─ respondeu Sara, sorrindo.
─ Querido Deus, obrigada por essa ceia maravilhosa. Obrigada, também, por o Senhor me presentear com uma mamãe e um papai tão bondosos. Mesmo o meu irmãozinho sendo malvado a maior parte das vezes, eu também te agradeço por ele existir. Abençoe-nos sempre, Papai do céu. Amém ─ todos disseram em uníssono, exceto Paul, este a olhava de uma maneira sombria, o sorriso que anteriormente reinara em seus lábios, sumira completamente.
─ Eu posso ir ao banheiro, papai? ─ perguntou Paul, docemente, mas a amabilidade existente em sua voz não tocara os seus olhos negros como a escuridão que devorava a noite lá fora.
Enquanto os demais membros da família ceavam, Paul fora cautelosamente até a sala e se ajoelhara defronte a árvore de Natal. Mas ele não olhava em sua direção, aqueles olhos sorriam para uma sombra que pairava próxima à árvore.
─ Olá, Paul ─ falou o vulto sem forma.
─ Olá.
─ Você não está sentindo fome, criança?
─ Eu não quero comer com eles! ─ a voz do Paul soou áspera no recinto.
─ Eles?
─ Sim, os meus pais e a minha irmã chata.
─ O que há de errado com eles?
─ Eles, os meus pais, não me deixam brincar com os meus amigos e a minha irmã é uma sonsa, é a filha preferida deles, eu a odeio!
─ Realmente, pequeno Paul, você merece pais melhores e um irmão para lhe fazer companhia. Essa garota, a Samantha, te odeia, sabia?
─ Como você sabe que ela me odeia?
─ Ah, é que as pessoas, no geral, tendem a me confidenciar os seus segredos mais singelos, é espontâneo, elas o fazem sem perceber.
─ Eu pensei que a Sam gostasse de mim...
─ Esqueça isso, Paul, vá cear com eles, apenas vá! ─ Ordenou o ser, e Paul, feito uma ovelha submissa, obedeceu ao seu pastor.
Ao voltar à mesa, se alimentou e tratou os demais ali presentes docilmente. Após comerem, se reuniram na pequena sala. Samantha saltitou ao desembrulhar o seu presente e encontrar uma boneca muito, muito bonita, o brinquedo era deveras similar a ela, possuía longos cabelos castanhos escuros e sua pele era alva como a neve que revestia a rua lá fora.
Sara se emocionou ao receber um abraço cheio de afeto da sua amada filha, e Paul, apesar de gostar do enorme carro vermelho, apenas olhou para Peter e lhe agradeceu com um meio sorriso.
Durante a madrugada, afora Paul, todos já estavam em suas camas. O garoto estivera a observar a irmã enquanto ela dormia. A sua vigília durou aproximadamente uma hora, e consigo encontrava-se a sombra, ela estava a lhe sussurrar o que Paul deveria fazer para que pudesse obter a família que há tempos ansiara. Sem mais delongas, a criança rumou à cozinha e pegou uma grande faca que Sara costumava esconder em um compartimento do armário que possuía um fundo falso.
─ Agora, criança, você já sabe o que fazer. Logo terás a família dos seus sonhos ─ soprou a criatura vil.
Mecanicamente, Paul seguiu para o quarto dos seus pais e empurrou a porta que se abriu lenta e pesadamente. Sem hesitar, o garoto subiu na cama e sentou em cima do seu pai.
Peter acordou sobressaltado e quando estava prestes a perguntar o que Paul estava fazendo ali, ele esfaqueou o seu peitoral inúmeras vezes. Em poucos segundos, Peter sufocou com a enorme quantidade de sangue que esguichava das feridas. Quando o corpo de Peter ficou imóvel, o garoto engatinhou até a sua mãe, Sara abriu os olhos, exasperada, saiu da cama e acendeu o abajur que ficava ao lado da cama. Quando avistou a cena horripilante, tapou a boca com as mãos, depois olhou para o filho e gritou insanamente:
─ Assassino! Assassino! Assassino! ─ Ao ouvir os gritos da mãe, Samantha correu e se deparou com o assassinato.
─ Paul, você matou o papai! ─ Berrou a garota com lágrimas jorrando dos seus olhos.
Repentinamente, a consciência do que se passara ali beijou a face anteriormente lívida do menino. E ao ver o que havia feito, olhou para o demônio sorridente no canto da porta e sussurrou como que para si mesmo: acabou. Nesse momento, Paul virou a faca para o próprio coração e enfiou a faca sentindo a vida esvair do seu corpo.
Gritos agonizantes ecoaram das bocas de Samantha e Sara.
E o demônio? Ah! Ele partira a gargalhar pela noite afora.
Jeane Tertuliano, no livro "Contos de um Natal sem Luz - Volume IV". Org. Rô Mierling. Torres: Editora Illuminare, 2017.
terça-feira, 13 de novembro de 2018
Resenha - Amityville, de Jay Anson
Amityville até poderia ser uma trama acerca de uma família que encontrou a casa dos sonhos à venda por um preço bem acessível. Contudo, para a família Lutz, a aquisição veio a se tornar um terrível pesadelo.
O Sr. Lutz é um agrimensor que está passando por uma crise financeira, pois os seus serviços estão sendo pouco requisitados. Depois de haver visitado diversas moradias, a família acaba encontrando um lar na Ocean Avenue, que é uma casa grande e bonita, porém tão barata que suscita estranheza em George.
Por conta disso, a corretora conta que a casa fora palco de um assassinato horrível da família que anteriormente residiu nela: os DeFeo. George queria ver a sua família feliz, e em 18 de Dezembro de 1975, eles se mudam para a casa. Após 28 dias, saíram às pressas da residência alegando que esta estava mal-assombrada.
Recomendo o presente livro aos amantes do terror / horror. A narrativa de Jay Anson é uma excelente pedida numa noite fria e solitária, porque após iniciar a leitura, sentir-se acompanhado em meio a solidão é um efeito meio que automático. Hahaha! 💀😏
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
Resenha - O Exorcista, de William Peter Blatty
Na presente obra, Blatty nos conta a história de Chris McNeil, uma atriz que tem sua vida posta à deriva ao ver sua filha de onze anos (a famosíssima Regan) ser acometida por um mal indescritível.
Após as tentativas infrutíferas de obter o diagnóstico da filha e das investigações de Karras (o padre-exorcista-psiquiatra, em suma, a po##@ toda) sobre o caso, a entidade que se apossa da garota fica cada vez mais indomável.
No confronto entre o bem e o mal, a perspicácia deste último é desvelada. Para as trevas imperarem, faz-se necessário que uma porta seja aberta e Regan, tal qual o menino que inspirou o romance, brinca com o proibido.
É rele1vante mencionar que Blatty foi responsável pelo roteiro da adaptação cinematográfica de 1973, que, inclusive, ganhou um Oscar.
P.S.: O Exorcista é uma das obras de terror mais impactantes que eu já li, eu o indico veementemente a todos e quaisquer leitores do gênero.
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