quarta-feira, 12 de junho de 2019

Análise da Peça Teatral Hamlet, de William Shakespeare

Antes de iniciar a análise dessa obra sublime, é mister que eu forneça um breve parecer acerca daquele que a concebeu. William Shakespeare (1564-1616) nasceu em Stratford-upon-Avon e é considerado um dos maiores na literatura mundial. Até hoje não se sabe ao certo a totalidade exata da vastidão das suas obras, mas é sabível que existem 34 peças, 154 sonetos, dois grandes poemas narrativos e outros diversos poemas.
Inicio o ensaio de Hamlet indicando aquele que fez florescer no coração do príncipe da Dinamarca o desejo por vingança: o suposto fantasma do finado rei Hamlet. Bernardo, Marcelo e Horácio são as primeiras personagens a vislumbrarem a aparição fantasmagórica do falecido rei Hamlet, este último tentou se comunicar com o fantasma, mas não obteve sucesso. Convencido de que o fantasma responderia somente ao seu filho, Hamlet, Horácio comenta com as demais testemunhas a necessidade de Hamlet ter ciência do ocorrido. Hamlet junta-se à guarda real durante a noite com o intuito de avistar o fantasma de seu finado pai, e este lhe fala sobre um crime cometido às escuras e que precisa ser revelado. O fantasma, alegando estar na danação para ludibriar o enlutado Hamlet, clama por vingança no Ato I, Cena V: 
“Fantasma: Está chegando a hora em que devo voltar para os tormentos das chamas sulfurosas.
Hamlet: Pobre Espectro!
Fantasma: Não lamentes, mas escuta, atento, o que revelo.
Hamlet: Fala; é meu dever ouvir-te.
Fantasma: E após ouvir, deve vingar-me.”
Ao ler estas falas, não consegui enxergar o sentimento paternal do suposto fantasma do rei para com o filho. Um pai de verdade não buscaria primordialmente confortar o coração do seu filho para somente depois esclarecer as causas da sua morte? A meu ver, esse deveria haver sido o proceder do espectro, mas não, trouxe consigo a tormenta e a alojou na mente e no coração do príncipe, para comprovar o que digo:
“Fantasma: Sou o Espectro de teu pai; condenado a vagar durante a noite, por algum tempo, e a jejuar de dia preso no fogo, até que este consuma e purifique as faltas criminosas que cometi em vida. Mas proibido de contar os segredos do meu cárcere, pois se os narrasse, a mínima palavra cortaria tu'alma e gelaria o próprio sangue jovem do teu corpo; faria teus dois olhos, como estrelas, saltar das órbitas, e teus cabelos eriçarem-se rijos, como as cerdas se eriçam no irritado porco-espinho. Mas revelar não posso o eterno arcano aos ouvidos humanos. Ouve! Escuta! Ouve! Se amaste um dia um pai querido...”
Haveria de restar alguma dúvida acerca da real intenção do espectro após eu sentir o asco consumir o meu ser ao notar o veneno existente no discurso dessa criatura vil? Ele não anseia por vingança, mas sim por desgraça! Ele foi o autor de todo mal que sobreveio ao pobre Hamlet, que teve de se fazer de louco, isso mesmo, Hamlet, sendo extremamente exposto a todos e quaisquer olheiros do rei, não poderia correr o risco de ter seus planos vingativos interrompidos. Aspirando a corrupção daquele meio, frustrada e dolorosamente, Hamlet quase perde a razão. Este age dissimuladamente, seu algoz e tio, Cláudio, não fez diferente, ambos usam o teatro dentro do próprio teatro, fazendo-se de joguetes, mas na verdade, são exímios jogadores. 
Por falar em perda da razão, lembro-me de Ofélia. Esta, ainda que estivesse apaixonada pelo príncipe, resolveu seguir os conselhos do pai, eu não a culpo por fazê-lo, afinal, se Hamlet a desonrasse, toda a vida da donzela seria convertida numa perdição. Contudo, ela sequer hesitou em renegar os sentimentos singelos do pobre Hamlet, vê-se isso claramente no Ato II, Cena I, quando Polônio questiona a filha acerca do desalento de Hamlet:
"Polônio: [...] Terás, acaso, usado ultimamente palavras muito duras?
Ofélia: Não, senhor.Mas, observando aquilo que ordenou, repeli suas cartas e neguei sua presença."
Hamlet, ao ser menosprezado por Ofélia, sucumbe avidamente à vingança, deixando os sentimentos amorosos que nutria pela jovem de lado. Ainda que ele tenha decidido se entregar à promessa de vingança feita ao espectro, anteriormente, Hamlet sentiu-se desolado, podemos vislumbrar a obrigatoriedade existente em seu lamento:
“[...] O mundo está fora dos eixos. Oh! Maldita sorte!... Por que nasci para colocá-lo em ordem! [...]”. (Ato I, Cena V).
Em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche diz que:
“[...] é o verdadeiro conhecimento, a visão da verdade, que aniquila todo ímpeto, todo motivo para agir, em Hamlet [...]”. (2007, p. 61). 
Na peça, o homem é retratado de uma maneira universal. Ele se encontra centralizado no palco, está a lutar pela sobrevivência da sua humanidade, humanidade esta que tenta abandoná-lo. Hamlet carrega nos ombros o peso do mundo, o fardo da vingança. Como Hamlet manteria a sua sanidade imune às enturvações dos pensamentos pesarosos que estavam a chicotear constantemente a sua consciência? Através do monólogo mais conhecido de Hamlet Ser ou não ser: eis a questão, somos direcionados novamente ao digamos que acovardamento da personagem, quando esta se torna consciente do que se passa de fato em Elsinore e se questiona, vê-se que não há mais a plena certeza de estar pronto para efetuar a vingança prometida. Hamlet olha ao seu redor e se ver em meio a uma corja de traidores, faladores da verdade, porém incomensuravelmente podres por dentro, aí é nesse momento que eu pressiono a mesma tecla novamente: como manter a sanidade imune?
Hamlet foi acometido por diversas traições no decorrer da trama. A primeira foi causada pelo seu tio Cláudio ao envenenar o próprio irmão Hamlet, o rei; em seguida, sua amada Ofélia deixa-se ser usada pelo pai para armar contra o príncipe, pelo qual ela nutre afeto. Polônio, pai de Ofélia, é o serviçal abominável do assassino do rei, possuidor de uma má índole tal como a de Cláudio. Até mesmo a sua própria mãe, Gertrudes, foi mais uma saqueadora da paz do jovem, que se casou com o irmão do falecido rei às pressas. Hamlet, ao conversar com Horácio, diz: 
"Os bolos fúnebres serviram para os frios do esposório. ”
Após essa declaração de Hamlet, eu fiquei aqui, jogando conversa fora com os meus botões, e nós inferimos algo, chegamos ao consenso de que talvez, e somente talvez, a rainha pudesse haver tido um affair com o perverso Cláudio enquanto o rei Hamlet ainda estava vivo. Não se pode negar que há essa possibilidade, sim, e digo mais: se titubear, é capaz de ela ter ciência do crime cometido por Cláudio. 
As traições não acabam por aí. Rosencrantz e Guildenstern, colegas de Hamlet da época do colégio, juntam-se aos demais abutres para destruir o injustiçado e tão amado pelo povo dinamarquês, Hamlet. Mediante as diversas divagações de Hamlet, me cabe somente compadecer-me da sua dor, que revestida de melancolia, o cegou; de certa forma, acabou o matando no fim, pois apesar de ser extremamente pensante e sentir que estava para ser guiado a uma armadilha, ele ignorou o resquício da razão que lhe sussurrou ao ouvido no Ato V, Cena II: 
"Mas não podes imaginar a angústia que sinto aqui no coração; mas não importa. [...] isso é tolice."
No fim, a morte devorou Ofélia, que ensandecida após o fim de Polônio (muito bem empregado por sinal), se pôs a devanear tal como aquele que ela traiu (Hamlet), e sucumbiu aos encantos funestos do ceifeiro.  A família real e o assassino de Hamlet, Laertes, também jazeram no solo contaminado pela corrupção e desamor dos habitantes de Elsinore.

Referências:
NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta & Hamlet. Trad. Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça, Barbara Heliodora. - [Ed. Especial]. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

domingo, 12 de maio de 2019

Morte Súbita


Em meados de dezembro do ano de 2012, despertei de um pesadelo incomensuravelmente nebuloso. Nesta dimensão em que me encontro após ter falecido, paira um constante silêncio. Aqui não há alegria, tampouco tristeza, a neutralidade é o plano de fundo desse devaneio macabro que parece não ter fim. Apenas sei que não estou bem. Sinto falta dos meus entes queridos, dos meus escritos. E pensar que um dia ousei dizer: hei de morrer se me privarem do ato de escrever. Agora, isolada num mundo no qual não sei cronometrar o tempo, existo em função dos poucos instantes em que consigo vislumbrar aqueles que já não posso mais tocar. Sabrina, uma morta que conheci ultimamente, me explicou que essas minhas aparições no mundo dos mortais se dão graças à minha constante presença em suas memórias. É gratificante saber que ainda não me tornei uma defunta deveras esquecida, mas, ainda assim, sinto-me infeliz ao pensar que, quando não mais houver o meu resquício em seus pensamentos, automaticamente sucumbirei ao silêncio eterno. 
Eu era uma jovem peculiar, assim diziam os meus amigos em todas as vezes que ousaram tentar me descrever. Caminhava, sempre que possível no cemitério São Lázaro, no Rio de Janeiro. Enquanto eu vagava entre os túmulos feito uma alma penada, os espíritos ali presos sussurravam desgraças belíssimas no ouvido do meu outro Eu obscuro. A maior parte dos meus escritos foram concebidos naquele solo acolhedor dos que já se foram. Não é de admirar que os meus familiares tenham decidido me enterrar neste lugar, afinal de contas, eu meio que já morava aqui em vida, logo seria mais que adequado retornar ao meu segundo lar tenebroso. 
Conheci John numa noite de lua cheia. Ele estava revestido de trevas, o negror de suas vestimentas atraindo não somente o meu olhar, mas também o dos demais universitários presentes naquele evento literário. O meu amado declamou o meu poema favorito: "O corvo", de Edgar Allan Poe, extremamente propício para o Halloween. Comemoramos aquela data nos seguintes anos de uma maneira especial: promovíamos um evento nesse local que você está pensando mesmo — sim, no tão idolatrado cemitério. 
Hoje, após cinco anos da ausência do meu corpo, ainda recebo daquele que amo flores brancas tingidas de preto. Eu sei que deveria desejar a sua felicidade ao lado de outro alguém, até porque já não habito o mesmo meio que ele, mas não consigo ignorar o que sinto. Algo me diz que ele precisa de mim da mesma maneira que eu necessito dele para não sucumbir ao vazio eterno. Decidi tentar me comunicar com ele hoje, pois, se o meu amor resistiu à morte, nossa conexão há de prevalecer mesmo que minha carne seja inexistente.
***
— John, vem para a cama. Que diabos você faz nessa escrivaninha todas as noites? 
— Se eu não escrever, Karen, hei de enlouquecer. 
— Você ainda pensa naquela sua noiva que faleceu? Como é possível, John?! Ela morreu há cinco anos, você precisa seguir em frente!
— Por favor, não me venha com seus sermões! Antes de namorarmos, eu a alertei sobre a minha situação emocional. Foi muito difícil para mim, tive que aprender a viver sem a mulher da minha vida, ela era tudo para mim. Fiquei sem chão quando a morte a tirou dos meus braços. O médico alegou ter sido um infarto, mas ela era uma moça tão jovem! 
— Chega, John! Cansei de ouvi-lo se declarar para outra! Como ousa continuar a escrever poemas para a Elisabeth, sendo que você tem a mim ao seu lado? Eu te amo, John! 
— Perdão, Karen, mas eu não consigo esquecê-la. Algo me impede de me entregar totalmente à nossa relação. 
Karen se levantou num rompante, pescou suas roupas no guarda-roupa e saiu porta afora. Segundos depois, voltou com os olhos marejados e jogou a aliança no noivo. 
— Não irei dividi-lo com uma defunta, John, não mais! 
Elisabeth, que sondava por ali naquele momento, sorriu ao presenciar o fim do noivado de John. Seguiu Karen até a varanda e lhe rogou uma praga. A mulher sentiu um arrepio percorrer o corpo, como se o próprio mal houvesse lhe tocado a alma, Mal sabia a pobre moça que sequer chegaria a vislumbrar a estrela da manhã no dia seguinte. 
John foi acometido por inúmeros pesadelos durante a noite. Elisabeth se deitou ao seu lado na cama de casal, ocupando o seu antigo lugar, vigiando o sono do amado de forma assustadora. Seus olhos, desprovidos de vida, não piscaram sequer uma vez. John sentiu frio a noite toda e, ao acordar, sentiu uma fadiga devoradora sugar-lhe as forças. Naquele dia, ele não foi trabalhar. Sentia-se inútil, sozinho e melancólico. Se antes a vida lhe parecia algo trivial, agora passara a ter certeza de que já não suportaria existir por mais um dia. Vasculhou a casa inteira à procura de algum medicamento que, tomado em quantidade demasiada, resultasse no fim daquele inferno terrestre. Elisabeth, ao compreender a intenção do amante, tentou chamar a sua atenção, queria fazê-lo enxergar que havia uma luz no fim do túnel. Ela seria a sua luz.
Após uma longa busca na casa inteira, John se pôs a chorar desesperadamente. Ele ansiava por paz, já não se importava com o sonho de se tornar um poeta renomado. Àquela altura do campeonato, seus sonhos haviam se tornado utópicos, totalmente infrutíferos, devaneios de um homem infeliz. Elisabeth, desesperada, tentou tocá-lo. John sentiu seus pelos eriçarem, um frio glacial tomou conta do recinto. 
— Lis? — chamou John, com urgência na voz. 
— Por favor, Lis, se você está aqui, dê-me um sinal, não me deixe nutrir esperanças, me ajude a dar cabo dessa existência insalubre. 
Ao ver o desalento do amado, Elisabeth decidiu ajudá-lo. Procurou na estante um livro que ela havia dado a ele um mês antes de falecer, Eu e outras poesias, de Augusto dos Anjos. Ao encontrá-lo, o espírito absorveu energia do ambiente e tentou retirar o objeto. Depois de uns instantes de total concentração, conseguiu fazer com que o livro caísse no chão. Quando John escutou o barulho vindo do seu quarto de leitura, saiu em disparada. Ao adentrar o local, John vislumbrou o livro no chão. Caminhando vagarosamente, se abaixou e o tomou para si. Com um sorriso alucinado nos lábios, disse: 
— Ah, Lis, tu bem sabes que a dor ocasionada pela tua ausência acabará me privando da vida. 
Elisabeth se regozijou. Passar meia década no vale dos mortos fez com que sua humanidade apodrecesse, levando-a a induzir à morte o homem que ela dizia amar com tanto fervor. Enquanto isso, na TV, os jornais locais noticiavam um acidente que resultou na morte de uma jovem. O veículo da moça foi de encontro a uma árvore minutos depois de ela ter saído da casa do noivo, John Neves. Pessoas que passavam pelo local antes do acontecimento alegaram ter visto o carro desviar abruptamente, como se a motorista houvesse se deparado com um obstáculo inexistente. "Todas as testemunhas foram coerentes ao descreverem a cena e não houve contradição nos depoimentos", afirmou o delegado que acompanhava o caso. 
Na casa de John, o silêncio reinava. Enquanto ele escrevia seu último poema, Elisabeth o observava tal como um abutre a espreitar sua presa. Em vida, a moça amava o talento de John, sentia-se orgulhosa de poder chamá-lo de seu, tornando-se uma contista assídua após se envolver com alguém que tinha o mesmo hobby que ela. A escrita transformou-se em algo vital depois que ela conheceu uma inspiração que prometia se fazer presente em sua vida para toda a eternidade. Contudo, o destino foi cruel e lhe privou da felicidade que era tê-lo para si. John sofreu imensamente com a ausência de sua amada. Ela, por outro lado, nutriu sentimentos abomináveis, principalmente quando o amado conheceu outra mulher, o que enfureceu Elisabeth. Ela se tornou um espírito vingativo; precisava ver o amado infeliz, afinal, sentia-se vazia, abandonada naquela dimensão repleta de seres macabros. De tanto conviver com aquelas criaturas, ela acabou se convertendo em uma delas. 
— John?! 
Lá fora, uma voz gritava pelo suicida. Elisabeth, irada com a interrupção, disparou em direção à porta para confrontar o intruso. 
Do outro lado da porta, um velho conhecido de Karen chamava por John. Era o padre Joseph, aflito, pois conhecia bem o casal e receava que a infelicidade de Karen houvesse feito com que a mulher cometesse suicídio. Aquela hipótese não saía de sua cabeça, ele precisava ouvir uma explicação de John. Embora estivesse muito abalado, Joseph notou que havia algo de errado. Era um padre experiente e por isso cogitou a possibilidade de haver uma presença espiritual extremamente negativa naquela residência. Sem mais delongas, o homem abriu a porta. O recinto estava gélido, o que era bem incomum em uma casa sem condicionador de ar em pleno verão. A presença dele incomodou Elisabeth. O padre irradiava uma força que a reprimia, e ela não queria partir sem terminar o que começou. 
— John, você está bem? -— gritou o padre. 
John, não muito distante, com uma lâmina na mão direita, prestes a cortar o pulso esquerdo, assustou-se e deixou o objeto cortante cair, erguendo-se e andando em direção à voz que o chamava.
— Oi, padre Joseph, A Karen não está aqui comigo, caso o senhor não tenha percebido. 
— Como ousa falar desse jeito, John?! 
— Eu expliquei a ela minha condição e ela decidiu partir, padre. Eu faria o mesmo, caso estivesse no lugar dela.
— Você está me dizendo que ela bateu naquela árvore de propósito, John?
— Que árvore? Do que o senhor está falando? 
— Vai dizer que já se esqueceu da noiva que faleceu ontem? 
— A minha noiva faleceu há cinco anos, e não, nunca hei de esquecê-la.
— Você andou usando alguma erva, rapaz? Estou falando da Karen. Naquele instante, John sentiu um peso absurdo assolar sua consciência. Lágrimas brotaram dos seus olhos enquanto ele tentava processar aquela notícia terrível. Ele não a amava, porém nunca desejou o seu mal. Karen sempre foi uma excelente companheira, mas, infelizmente, cometeu um grande erro ao se apaixonar pelo homem errado.
— Perdão, padre. Eu não saí de casa desde que Karen foi embora. Meu Deus, ela se matou? Eu entendi direito? Isso não pode ser verdade, Karen é religiosa demais para cometer suicídio, o senhor bem sabe disso. 
—- Não se sabe ao certo se foi proposital, mas todas as testemunhas afirmaram que o carro de Karen desviou subitamente, como se houvesse um obstáculo a impedindo de passar; mas não havia nada, entendeu?
— Isso não faz o menor sentido. Karen jamais faria isso. Eu sei que ela estava magoada, mas em nenhum momento ela me deu algum indício de que se mataria. Será que... Não, estou imaginando coisas. Pobre Karen, não merecia esse fim. 
—- Você suspeita de alguma coisa, John? 
— Nada que possa ser comprovado, padre.
— Fale, John. Eu preciso compreender o que realmente aconteceu.
— O senhor acharia que estou louco, e não é para menos, mas...
— Fale! 
— Padre, se o senhor não houvesse aparecido, neste exato momento eu estaria morto. Lis esteve aqui, a minha Elisabeth. Fiquei aflito após ser abandonado por Karen, uma melancolia repentina me dominou e eu desejei morrer, padre. Clamei por Lis. No início, ela não se pronunciou, mas quando eu estava prestes a desistir do fim, ela me mostrou um livro, quer dizer, ela o fez despencar da estante. Eu entendi que ela desejava que eu sucumbisse ao vazio eterno, tal como ela o fez. Somente Elisabeth sabe que eu guardo lâminas na gaveta do armário, padre. Tenho certeza de que ela esteve aqui. 
— Você quer dizer que a finada Elisabeth pode ter alguma coisa a ver com o acidente?
— Eu não disse isso, padre, foi apenas algo sem nexo que passou pela minha cabeça. A Elisabeth era uma boa pessoa, ela nunca faria mal a Karen.
— Se realmente for verdade o que você me contou, tenho certeza de que ela teria coragem de matar Karen, John, pois até mesmo o homem que a ama ela queria destruir. Encare os fatos. Talvez ela não seja a mesma de antes.
— Padre...
Repentinamente, uma lâmina se chocou contra a clavícula do padre, que, aturdido, levou a mão ao ferimento. Não havia sido profundo, a lâmina não havia sido jogada com força o suficiente para causar danos maiores. John, ao ver o que o espírito de sua amada fora capaz de fazer, passou a duvidar das intenções de Lis. Ele foi até o padre para dar uma olhada no ferimento. Ambos ficaram em silêncio, alertas ao próximo passo do fantasma.
— Eu senti a presença dela quando cheguei à sua casa, John. Era uma energia negativa, havia um escudo de aura negra. Ela não queria que você sobrevivesse.
— Como ela pode ter se tornado tão má, padre? O que eu fiz para despertar a sua ira? Eu a amei em vida e após a sua morte fui leal à sua memória! Eu não compreendo...
— A essência dela pode ter sido corrompida, John. 
— Não sabemos o destino que seu espírito seguiu após o fim da vida terrestre. 
— Não consigo suportar a ideia de ela ter se transformado em algo maléfico. Desejo que ela tenha paz do outro lado. O senhor poderia orar por ela? Precisamos ajudá-la a encontrar a luz, senão ela poderá machucar outras pessoas ou até mesmo matar alguém. Pobre Karen... 
— Precisamos exorcizar o espírito dela, John, e, depois que ela se for, você precisará remover de sua mente a ideia de tê-la para si. Você precisa deixá-la ir, John. 
— Está bem, padre. 
O cômodo ficou ainda mais gélido. Elisabeth sentiu uma fúria imensurável ao ouvir o seu amado abrindo mão dela tão facilmente; ficou transtornada de ciúmes. Por conta da morte de Karen, John passou a ver Elisabeth como um monstro, e aquilo era inaceitável. Os objetos da sala começaram a flutuar. O padre deu início ao exorcismo, e John orava em silêncio, com os olhos fechados. Se Deus realmente existe, pensou ele, com certeza há de libertar a alma de Lis e guiá-la para a paz. 
Depois de longos dez minutos de oração, os objetos que antes flutuavam se espatifaram no chão. John sussurrou: "Vai em paz, Lis", e o padre Joseph finalizou o exorcismo com o sinal da cruz. Na mesma hora, o calor retornou à casa. A energia negativa havia se esvaído e John já não se sentia doente. Tudo parecia calmo e em seu devido lugar. Elisabeth havia partido, tudo iria entrar nos eixos, pensou o padre Joseph. 
John levou cerca de uma hora para arrumar a casa, que parecia ter sido virada do avesso. Exausto, deitou-se no sofá e logo pegou no sono. A princípio, a tranquilidade reinou. Ele sonhou com Karen - ela estava em um lugar bonito e parecia estar muito feliz. John foi ao seu encontro e a abraçou com força, sentindo um cheuro de rosas, mas nao eram quaisquer rosas; era o mesmo aroma das rosas que ele comprara para pôr no túmulo de Elisabeth. Assustado. John se desvencilhou de Karen e, desconfiado, analisou o lugar. Tudo parecia belo como no início. Ele olhou nos olhos de Karen e viu um ressentimento muito intenso neles... 
— Perdão, Karen, eu não soube dar valor a você, eu te fiz infeliz. 
Lágrimas jorraram dos olhos de John. Ele realmente estava arrependido de não ter se esforçado mais para fazer aquela moça que tanto lhe amou, feliz. Ele se aproximou novamente dela e sentiu vontade de beijá-la uma última vez, afinal, talvez fosse isso que ela desejara ao visitá-lo em sonho: se despedir. Quando John aproximou seus lábios dos dela, o rosto de Karen assumiu uma nova forma. Parecia o de Elisabeth, mas estava terrivelmente deformado. Ela agarrou-se ao corpo de John, o odor da putrefação impregnando o ar. Gargalhando insanamente, Elisabeth sussurrou no ouvido dele: "Vim buscar você, meu amado".

Jeane Tertuliano, no livro "Postumus - Relatos Sombrios". Org. Juliana Daglio. São Paulo: Rouxinol Editora, 2018.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Infindo

No fim, restou-me apenas
o silêncio ecoante da solidão.
A melancolia inundou-me a alma
e fez da minha sanidade,
refém.
Pudera eu haver padecido
ou, quem sabe, nunca haver nascido!
Pois, apenas dessa forma,
eu não sentiria a agonia da não despedida
que é lhe perder sem ao menos havê-lo tido.
O mar dos meus olhos mantém-se fluindo
em direção ao além-mundo
Infindo.

Autoria: Jeane Tertuliano

terça-feira, 5 de março de 2019

Resenha - Psicose, de Robert Bloch


ROBERT, Bloch. Psicose; tradução de Anabela Paiva. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2013. 240 p.: classic edition.

No primeiro capítulo da narrativa, Bloch fornece ao leitor fragmentos da rotina dos Bates, contudo, o desenrolar da trama tem foco na secretária Marion Crane, que é uma antiga funcionária de um escritório imobiliário. 

Certo dia, seu superior a encarrega de depositar uma quantia considerável de dinheiro. Esta, vendo a oportunidade de mudar de vida, foge com o valor. Longe dali, ela é surpreendida por uma tempestade e acaba errando o caminho, indo parar no hotel da família Bates.

Psicose é um thriller de suspense que conduz e manipula o leitor a questionar-se acerca do que irá acontecer sem dar indícios de como será o desfecho da narração. 

O autor oferece somente aquilo que toma por essencial, guiando seu leitor para onde bem entende, alvejando o ponto culminante da estória na execução do apogeu derradeiro.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Resenha - Mulheres, de Charles Bukowski


Mulheres, assim como as demais narrativas de Buk, mostra um espelho das nossas prisões. O álcool, insígnia da embriaguez, nos apresenta uma espécie de fuga das amarras da vil realidade.

Chinaski, pseudônimo de Bukowski, diz:

"Eu era uma soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus, idéias, ideais, nem me preocupava com política. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante; dava muito trabalho. Eu queria mesmo era um espaço sossegado e obscuro para viver minha solidão. Por outro lado, de porre, eu abria o berreiro, pirava, queria tudo e não conseguia nada. Um tipo de comportamento não casava com o outro. Pouco importava.”

O parágrafo acima resume o que nós vislumbramos da personagem, sem generalizar. Contudo, cada um de nós é preguiçoso e ambicioso a seu modo, não é mesmo?

É relevante mencionar que Chinaski escrevia somente após haver bebido bastante, ele era um alcoólatra.

Eu realmente gosto desse tipo de literatura, que fornece um retrato visceral da realidade. Em suma, deem uma chance a Buk, pois o velho safado carece de ser lido.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Resenha - Edgar Allan Poe: A Critical Biography, de Arthur Hobson Quinn


Enquanto letróloga e profunda admiradora do Mestre Edgar A. Poe, afirmo: se há uma biografia digna de ser lida, certamente, é esta. A presente obra é fruto das incontáveis pesquisas de Quinn, que, em suma, fornece evidências de que Griswold (o primeiro biógrafo do autor) fez modificações em algumas das cartas de Poe para que desse a entender que este apoiava suas alegações distorcidas.

Quinn também aborda questões referentes a bebida. Poe tinha algum tipo de disfunção metabólica quando se tratava de beber álcool. Enquanto muitas pessoas bebem garrafas de vinho e não obtêm a reputação de serem alcoólatras, Poe, por outro lado, parecia estar embriagado por dias após beber apenas um copo de vinho.

Quando Virginia (sua prima e amada) estava prestes a falecer, devido à tuberculose que veio a lhe matar, o desespero de Poe o fez recorrer à bebida.

O eu-enamorado de Poe parece nunca haver sido capaz de reconhecer a tuberculose de Virginia — sempre alegando que ela havia estourado um vaso sanguíneo cantando.

Arthur diz que a poesia de Poe é a sua maior conquista. Quando ele discute sobre as obras dele, é na poesia que se demora. O biógrafo afirma que Poe produziu poemas altamente originais e eficazes, mesmo que seu entendimento escrito sobre a teoria e a história do verso inglês não haja sido tão bom, sendo Eureka a única exceção.
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Quinn foi o primeiro biógrafo a documentar extensivamente as falsificações e mentiras do executor literário malignamente inteligente de Poe: o reverendo Rufus Griswold. O dito cujo foi demasiado astuto em seu enegrecimento do caráter de Poe e na estimativa da sua obra.
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Recomendo esta biografia crítica àqueles que amam a escrita de Poe e anseiam conhecê-lo verdadeiramente, pois não há outra obra acadêmica que exponha com tanta propriedade quem realmente foi Edgar Allan Poe.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Lapso

A véspera de Natal finalmente havia chegado àquela vila localizada entre as montanhas. Juntamente dela, uma nevasca achegou-se sorrateiramente durante a noite e assolou o lugar sem ao menos fornecer uma prévia de todo o isolamento que acometeria às famílias que ali residiam. Antes de a noite cair, Samantha esteve a observar o portão que pendia na entrada da rua sem saída, ela questionara diversas vezes sobre qual seria o presente que o Papai Noel traria para ela.
Ela também gostaria de saber quais presentes o bom velhinho levaria às outras dezenove casas. Ela sonhara com aquele momento, e como sonhara! Samantha sentiu-se feliz ao acordar.
Apesar de o senhor e a senhora Martins terem uma renda mensal humilde, eles haviam economizado durante meses para que seus filhos, Paul e Samantha, pudessem desfrutar de uma ceia decente, e, por sorte, sobrara uma pequena quantia para que as crianças se alegrassem ao avistarem os presentes que há anos pediam incessantemente ao pai e a mãe.
Paul era um garoto sapeca. Diferente da sua irmã, ele reclamava de tudo, nada era o bastante para deixá-lo contente. Sua mãe, Sara, sempre se perguntara de quem a criança herdara aquele gênio, pois Peter era um homem extremamente calmo, sequer se zangava quando Paul aprontava uma das suas traquinagens. Contudo, era véspera de Natal, a tempestade de neve havia alterado o humor de Paul a tal ponto que Samantha estava receosa de aquela mudança repentina ser fingimento do seu irmão.
Às vinte horas, a família se reuniu ao redor da mesa e contemplou a refeição por alguns segundos. Logo em seguida, Samantha se pronunciou alegremente, cantarolando:
─ Mamãe, mamãe, eu posso fazer uma oração para o Papai do céu antes de comermos?
─ Claro, meu amor ─ respondeu Sara, sorrindo.
─ Querido Deus, obrigada por essa ceia maravilhosa. Obrigada, também, por o Senhor me presentear com uma mamãe e um papai tão bondosos. Mesmo o meu irmãozinho sendo malvado a maior parte das vezes, eu também te agradeço por ele existir. Abençoe-nos sempre, Papai do céu. Amém ─ todos disseram em uníssono, exceto Paul, este a olhava de uma maneira sombria, o sorriso que anteriormente reinara em seus lábios, sumira completamente.
─ Eu posso ir ao banheiro, papai? ─ perguntou Paul, docemente, mas a amabilidade existente em sua voz não tocara os seus olhos negros como a escuridão que devorava a noite lá fora.
Enquanto os demais membros da família ceavam, Paul fora cautelosamente até a sala e se ajoelhara defronte a árvore de Natal. Mas ele não olhava em sua direção, aqueles olhos sorriam para uma sombra que pairava próxima à árvore.
─ Olá, Paul ─ falou o vulto sem forma.
─ Olá.
─ Você não está sentindo fome, criança?
─ Eu não quero comer com eles! ─ a voz do Paul soou áspera no recinto.
─ Eles?
─ Sim, os meus pais e a minha irmã chata.
─ O que há de errado com eles?
─ Eles, os meus pais, não me deixam brincar com os meus amigos e a minha irmã é uma sonsa, é a filha preferida deles, eu a odeio!
─ Realmente, pequeno Paul, você merece pais melhores e um irmão para lhe fazer companhia. Essa garota, a Samantha, te odeia, sabia?
─ Como você sabe que ela me odeia?
─ Ah, é que as pessoas, no geral, tendem a me confidenciar os seus segredos mais singelos, é espontâneo, elas o fazem sem perceber.
─ Eu pensei que a Sam gostasse de mim...
─ Esqueça isso, Paul, vá cear com eles, apenas vá! ─ Ordenou o ser, e Paul, feito uma ovelha submissa, obedeceu ao seu pastor.
Ao voltar à mesa, se alimentou e tratou os demais ali presentes docilmente. Após comerem, se reuniram na pequena sala. Samantha saltitou ao desembrulhar o seu presente e encontrar uma boneca muito, muito bonita, o brinquedo era deveras similar a ela, possuía longos cabelos castanhos escuros e sua pele era alva como a neve que revestia a rua lá fora.
Sara se emocionou ao receber um abraço cheio de afeto da sua amada filha, e Paul, apesar de gostar do enorme carro vermelho, apenas olhou para Peter e lhe agradeceu com um meio sorriso.
Durante a madrugada, afora Paul, todos já estavam em suas camas. O garoto estivera a observar a irmã enquanto ela dormia. A sua vigília durou aproximadamente uma hora, e consigo encontrava-se a sombra, ela estava a lhe sussurrar o que Paul deveria fazer para que pudesse obter a família que há tempos ansiara. Sem mais delongas, a criança rumou à cozinha e pegou uma grande faca que Sara costumava esconder em um compartimento do armário que possuía um fundo falso.
─ Agora, criança, você já sabe o que fazer. Logo terás a família dos seus sonhos ─ soprou a criatura vil.
Mecanicamente, Paul seguiu para o quarto dos seus pais e empurrou a porta que se abriu lenta e pesadamente. Sem hesitar, o garoto subiu na cama e sentou em cima do seu pai.
Peter acordou sobressaltado e quando estava prestes a perguntar o que Paul estava fazendo ali, ele esfaqueou o seu peitoral inúmeras vezes. Em poucos segundos, Peter sufocou com a enorme quantidade de sangue que esguichava das feridas. Quando o corpo de Peter ficou imóvel, o garoto engatinhou até a sua mãe, Sara abriu os olhos, exasperada, saiu da cama e acendeu o abajur que ficava ao lado da cama. Quando avistou a cena horripilante, tapou a boca com as mãos, depois olhou para o filho e gritou insanamente:
─ Assassino! Assassino! Assassino! ─ Ao ouvir os gritos da mãe, Samantha correu e se deparou com o assassinato.
─ Paul, você matou o papai! ─ Berrou a garota com lágrimas jorrando dos seus olhos.
Repentinamente, a consciência do que se passara ali beijou a face anteriormente lívida do menino. E ao ver o que havia feito, olhou para o demônio sorridente no canto da porta e sussurrou como que para si mesmo: acabou. Nesse momento, Paul virou a faca para o próprio coração e enfiou a faca sentindo a vida esvair do seu corpo.
Gritos agonizantes ecoaram das bocas de Samantha e Sara.
E o demônio? Ah! Ele partira a gargalhar pela noite afora.

Jeane Tertuliano, no livro "Contos de um Natal sem Luz - Volume IV". Org. Rô Mierling. Torres: Editora Illuminare, 2017.